Alunos de Jornalismo realizam pesquisa inédita sobre violência contra a mulher

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71,2% dos estudantes conhecem uma mulher que sofre ou já sofreu violência. O número, revelado na pesquisa com 617 estudantes da Unisanta, reforça a tese de que os atos de violência contra a mulher são crescentes e cotidianos

Por Jane Freitas

É impossível se calar diante números cada vez mais crescentes e alarmantes. Por mais que seja divulgado pela mídia, a questão da violência doméstica é um assunto que deve, obrigatoriamente,  ser pautado também em escolas e universidades.

Dentro da sala de aula, conhecimentos vêm à tona. Uma melhor percepção da vida e seus fatores recorrentes são colocados em pratos limpos. Uma verdadeira luta contra preconceitos, injustiças e violação dos direitos humanos.

Durante 15 dias, cerca de 45 alunos do primeiro ano de Jornalismo, dos períodos diurno e noturno da Universidade Santa Cecília, entrevistaram 617 estudantes de 20 cursos, como atividade para a disciplina Pesquisa em Jornalismo, ministrada pelo professor Fernando De Maria.

As 26 perguntas tinham por objetivo aferir a percepção dos estudantes a respeito da violência a que a mulher está exposta na sociedade. Com apoio da Enfoque Comunicação, os dados coletados apresentaram a percepção dos alunos a respeito dos tipos de violência e  até seu eventual grau de proximidade com as vítimas.

Os resultados confirmam a tendência da escalada da violência contra a mulher, registradas em algumas pesquisa de alcance nacional. 71,2% dos entrevistados afirmam conhecerem um mulher que sofre ou já sofreu algum tipo de violência, sendo 12,7% vizinhas, 12,3% colegas de escola/faculdade e 10,4% a própria mãe.

Para 21,8% dos entrevistados as violências sofridas pelas mulheres são de ordem sexual, seguida de violência física (19,4%)  e psicológica (18%).

Segundo os estudantes, as agressões são/foram realizadas em 30,2% dos casos, pelo marido/companheiro das vítimas e 12,1% pelo namorado.

Outro dado alarmante – e infelizmente também muito recorrente no país – é que em 52,3% dos casos relatados pelos entrevistados não houve denúncia à polícia.

39,4% das mulheres ouvidas na pesquisa confessaram ter sofrido xingamentos (21%), pressão psicológica (4,3%)  e humilhação (10%). As agressões foram praticadas por: ex-namorado (37.3%), desconhecido (12.1%) e colega de escola (12,1%). Aconteceram na rua (29,4%) , em casa  (17%) e na balada (10,5%).

Ao serem questionados, sobre o que deve ser feito nessa situação, 84,1% dos estudantes alegaram que concordam que todo agressor deve ser denunciado.

Informação para combater a violência

Uma das entrevistadoras da pesquisa, a aluna do segundo ano de Jornalismo Marcela Rodrigues dos Santos, de 27 anos, tem consciência da importância em se trazer à tona a triste realidade vivenciada por muitas mulheres. Para ela, o trabalho da pesquisa traz uma oportunidade da pessoa conseguir se expressar. “Eu acho que isso é muito importante. Poder se expressar e trazer à tona essa realidade que muitas vezes fica mascarada, ninguém toca no assunto, mas acontece”.

Marcela, que já trabalhou com tema da violência em outras reportagens feitas para a faculdade disse que  o que mais impressionou foi que “boa parte das pessoas que a gente pesquisou procura a Delegacia da Mulher, ou acredita que a Delegacia da Mulher precisa ser esse instrumento. Eu acho que isso é algo interessante e  a gente precisa também conseguir falar mais sobre esses espaços públicos, para poder proteger e defender as mulheres”.

De acordo com o professor responsável pela disciplina de Pesquisa em Jornalismo, Fernando De Maria, o questionário foi montado para tentar identificar, dentro da universidade, como é esse cenário.

Segundo o professor, os resultados mostram uma triste realidade. Um dos tópicos que chamou sua atenção foi porcentagem dos entrevistados que possuem a visão de que, dependendo da situação, algumas mulheres merecem sofrer algum tipo de violência. Infelizmente, aproximadamente 3,9% responderam  de modo afirmativo a questão.

Outro fato que chamou a atenção de De Maria foi o relato de uma das alunas pesquisadoras. A estudante de Jornalismo ao entregar o questionário para uma das entrevistadas notou que ela ficou com a folha em mãos por cerca de 15 minutos, analisando se responderia ou não.

“Imagina o que esse questionário representou para essa jovem. Provavelmente é bem possível que entre ali numa gravidade muito forte de violência física ou sexual, principalmente, e que às vezes, deixam marcas mais nítidas nesse sentido”, concluiu o professor. Após refletir, a jovem aluna respondeu a pesquisa.

“A universidade precisa ser parte ativa
desse processo de ressignificações”

Nara Assunção é professora de Jornalismo e uma das idealizadoras do Observatório Chega!. A jornalista que apoia ativamente o combate à violência contra a mulher diz que esse primeiro levantamento (pesquisa) não poderia ter sido feito em melhor lugar do que dentro da universidade  e de maneira interdisciplinar.

Para ela, o Observatório, que nasceu de uma demanda de alunas, saber o que todos pensam sobre esta temática, contribuirá com o trabalho realizado pelo projeto e futuras ações. “Os resultados demonstram o quanto ainda precisamos falar sobre a violência contra a mulher dentro e fora da universidade. Demonstrou também, o quanto as nossas alunas são vítimas das mais diferentes violências, isso porque sabemos que muitas que dizem que nunca sofreram,  na verdade escondem uma outra realidade. Um tópico que também me chamou atenção é que a violência está muito próxima de pessoas conhecidas, como mães, vizinhas e amigas de colégio.

Com esses dados, no dia 25 de novembro, fizemos uma ação de colar cartazes pela faculdade. Assim pretendemos despertar o incômodo nas pessoas. Não podemos mais achar normal tudo que acontece. Precisamos debater, pesquisar, conversar, mostrar, e a universidade precisa ser parte ativa deste processo de ressignificações”.

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