Por Karina Black e Amanda Oliveira

O ar está rarefeito. As cores do ambiente são escuras, as paredes não contém janela e falta luz. O cômodo possui capacidade para abrigar apenas duas pessoas, mas só uma parece possuir o controle de entrar e sair dele.

A primeira vez que ela visitou o local, o ambiente não parecia tão assustador como é agora. O ar pesado, a falta de cores vívidas, janelas e luz, incomodavam, mas ela ainda conseguia se movimentar dentro dele. Aos poucos, sua visão foi se habituando à escuridão e aquela paisagem que antes causava estranheza, se tornou familiar. Por mais que tentasse fugir, ela parecia andar em círculos pelas palavras medo e culpa, que sempre a levam de volta para a caixa escura.

Ensaio fotográfico por Bruna Quevedo

A frequência com a qual ela era obrigada a visitar o local a transformaram em prisioneira. Aconteceu de forma sutil. Quando ela se deu conta, amarras invisíveis prendiam-a ele.

Os nós em seus pés a apertavam. Ela tentava correr e dores percorriam seu corpo como resultado do excesso de esforço que sempre pareciam levá-la ao fracasso. Por mais que lutasse, ela nunca saia do lugar. Já havia tentado de tudo, mas continuava estacionada.

Nas mãos, ela carregava um buquê de rosas, com muitos espinhos e que já havia murchado, mas ela estava atada a ele. As amarras davam voltas ao redor de seus pulsos, a forçando continuar segurando aquilo que era símbolo de um amor que havia há muito tempo chegado ao fim. De alguma forma, mesmo sabendo que gotas de sangue escorriam pelas suas palmas, resultado dos espinhos que a feriam, ela acreditava que por algum milagre, aquelas flores pudessem voltar a florescer novamente. Tinha esperanças de conseguir consertar aquela relação.

Parte deste sofrimento ocorre porque ela não consegue enxergar a extensão das amarras que a prendiam. Elas eram pesadas como correntes de ferro, mas estavam invisíveis aos seus olhos. A única coisa que lhe era clara era que haviam muitas cordas envolvendo seu corpo.

De longe, ele a observa. Tem consciência de que é o responsável por capturá-la e continuar mantendo à refém, mas se recusa a libertá-la. Ele aperta as cordas e preenche o ambiente com o som alto de sua voz para desmotivá-la. Limitar seus sentidos é um das ferramentas que ele utiliza para que ela acredite que não há saída.

Apesar de o cômodo abrigar apenas os dois, ele não é o único algoz que ela possui. Lá fora da caixa, uma multidão parece fortalecer o discurso utilizado por ele, de que ela não é capaz.

Ela está cansada de lutar. O mundo inteiro contra si, lhe parece um oponente invencível. Quando está prestes a desistir de encontrar uma saída para seu labirinto, algo dentro de si começa a brilhar e ela descobre que não precisa encontrar uma lâmpada no fim do túnel para sua escapatória: a luz que busca está dentro de si.

A descoberta a preenche de coragem. Então, a caixa que era escura se torna clara. Agora, ela consegue ver os nós que a mantinha naquela prisão e desfazê-los. Pouco a pouco, ela se liberta e as amarras voltam a se tornar invisíveis aos seus olhos, pois deixam de existir.

Trecho do livro “Amarras Invisíveis”, de Karina Black e Amanda Oliveira, originário de um Trabalho de Conclusão de Curso para a faculdade de Jornalismo da Unisanta.

Escrito por

Chega Admin

Grupo de alunos, ex-alunos e professores da Universidade Santa Cecília – FaAC, metendo a colher para conectar pessoas, ideias e lutas, dispostos a contribuir com o debate público sobre a violência contra a mulher.