Compreender o que se sente é um sinalizador importante para entender quando algo está errado na relação

Por Jane Freitas

Entender a violência doméstica não é fácil. A Psicologia tenta enquadrar a questão de forma individualizada, a partir de cada contexto. Entender o histórico familiar, auxilia muito para enxergar fatores que possam desencadear – ou perpetuar – atos violentos.

Para a psicóloga Sandra Regina Pessoa de Meneses, um relacionamento marcado por conflitos sérios reflete, na verdade, a repetição de uma situação de violência anterior, ou seja, um histórico de origem familiar violenta.

“São padrões relacionais violentos. Padrões de relação onde a pessoa, a criança, é desqualificada e até agredida fisicamente. Então, mulheres que aceitam se relacionar com homens violentos aquilo não é novidade de alguma forma”.

Psicóloga Sandra Regina Pessoa de Meneses

Em contrapartida, mulheres que crescem em ambientes protegidos e não-violentos, ao primeiro sinal de agressividade no relacionamento, tendem a dizer o não definitivo. De acordo com a psicóloga, elas têm a premissa de não aceitarem, em hipótese alguma, essa forma de tratamento, e decidem sair da relação.

Apesar do contexto familiar, existe um sinalizador para que a mulher perceba quando alguma coisa está errada: o mal-estar que ela sente, o desconforto. Sandra explica que os fenômenos de violência, às vezes, vêm acompanhados de sensação de anestesia.

“São fenômenos muito próximos, a violência e a anestesia. São coisas que a gente vê até em grandes contextos como, por exemplo, na televisão: banalizam a violência. Vira quase que um ‘ah, tudo bem. É assim mesmo’. E algumas pessoas vão naturalizando isso com o ‘ah, coitado, ele tá tenso, ele trabalha demais, ele tá correndo o risco de perder o emprego, o pai dele também fazia isso’. Sempre tem uma justificativa”.

Psicóloga Sandra Regina Pessoa de Meneses

É imprescindível fazer um esforço e buscar perceber o que está fazendo mal no relacionamento, movimentar-se para sair dessa anestesia e normatização. Conversar com pessoas de confiança também pode ajudar, tanto no reconhecimento desses pontos conflituosos quanto para buscar apoio.

Migalhas

Mas, de volta ao contexto familiar, para entendermos um pouco mais a raíz de muitos dos problemas enfrentados na relação, a psicóloga exemplifica casos de pessoas que receberam maus-tratos por parte da mãe, ou que foram criadas como filhas(os) invisíveis, e não tiveram, afetivamente, a presença materna em suas vidas.

Por várias razões, entre elas, mães que tiveram muitos filhos, a criança invisível vai se contentar, ao longo da vida, com relacionamentos de migalhas, até que ela se dê conta de que se trata de um padrão que vem se repetindo desde a infância.

“Espera aí, então eu aceito isso porque eu acho que é o que eu mereço porque na relação com a minha mãe eu só recebia migalhas? E aí, vai desencadeando a história e a mulher começa a ser exigente, a entender que merece mais que aquilo, ou que precisa e quer mais que aquilo. É uma desconstrução que precisa, as vezes, de um tempo, não é do dia pra noite. É um trabalho delicado, artesanal”.

Sandra acredita que falar é muito importante, ajuda a enfrentar as resistências. Por serem histórias que vêm de muito tempo, a ajuda psicológica faz com que a pessoa comece a perceber que ela tem condições de sair disso.

Quando é feita essa conexão de que a força que mantém a mulher em um relacionamento abusivo vem de uma vivência da infância, ela passa a entender e se posicionar de que não é preciso ficar repetindo essas situações.

A partir daí, abre-se um outro caminho para buscar um novo jeito de se posicionar na relação, seja com o mesmo parceiro ou com outra pessoa.

Escrito por

Equipe Chega!

Grupo de alunos, ex-alunos e professores da Universidade Santa Cecília – FaAC, metendo a colher para conectar pessoas, ideias e lutas, dispostos a contribuir com o debate público sobre a violência contra a mulher.