Ninguém melhor do que você para conhecer o comportamento do seu companheiro e identificar os sinais de alerta

Por Jane Freitas

Já dizia Luís Vaz de Camões: “Amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói, e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer. É um querer mais que bem querer; É um andar solitário entre a gente; É nunca contentar-se de contente; É um cuidar que ganha em se perder. É querer estar preso por vontade; É servir a quem vence, o vencedor; É ter com quem nos mata, lealdade. Mas como causar pode seu favor nos corações humanos amizade, se tão contrário a si é o mesmo amor?”

Você já parou para refletir até que ponto existe – e se é que existe – amor verdadeiro na sua relação? Até que ponto é “preciso” sofrer, colher migalhas, se humilhar e ter – como citou Camões – lealdade com quem pode até te matar, em nome desse amor? Para quem se sente aprisionado em um relacionamento, aí vai o nosso recado: o verdadeiro amor é um sentimento nobre, brando, curativo. Ele não machuca, não destrói, traz infelicidade.

Em inúmeros casos, a mulher se vê enredada em uma situação de violência que se perpetua dia a dia. O chamado “ciclo de violência”. Ainda que não seja uma regra, o que mais se observa nos relacionamentos abusivos é que o agressor se mostra uma pessoa normal e até carinhosa. Em determinado momento, o carinho se transforma em ciúme excessivo e nem sempre a companheira percebe. Muitas vezes a mulher encara essas desconfianças como demonstração de amor. A situação chega à explosão verbal, ao empurrão, um tapa, um soco, para logo depois, vir o pedido de perdão. Após o momento de fúria, o agressor se ‘acalma’ e jura nunca mais. A mulher, por amor, medo ou receio de prejudicar os filhos, se cala. “Verifica-se, na maioria dos casos de vítimas de violência doméstica, que a mudança de comportamento do parceiro é temporária, até que uma outra explosão aconteça e o clico volta a se repetir”, explica a juíza e professora universitária de Direito Processual Penal da Universidade Santa Cecília, Silvana Amneris Rolo Pereira Borges.

Em sua experiência diária, a juíza tem percebido que algumas mulheres, por estarem mais bem informadas, se conscientizaram e dão um basta na situação. “Até porque toda hora a televisão fala, o jornal fala, a internet fala, as redes sociais mostram. ‘Ai, mas nunca aconteceu tanto’. Sempre aconteceu! É que nós não sabíamos. As coisas não chegavam ao Estado. As mulheres ficavam caladas, apanhavam caladas”.

Por que muitas mulheres não conseguem deixar seus agressores?

https://youtu.be/cVXk1Q8vQHw

Afinal, o que vale mais, manter o mito do casamento eterno, da família perfeita, a boa situação econômica? Vale mais pensar no prejuízo que uma eventual separação traria aos filhos do que na própria vida?
Advogado e mestre em Direitos Humanos, Danilo de Oliveira, acredita que se há um agressor dentro de casa, o afastamento é importante para proteger, inclusive, os filhos, por mais que não haja um histórico de agressão às crianças e aos adolescentes. “Acho que esse é um cuidado que o Poder Público tem que ter, até porque, do ponto de vista jurídico, crianças e adolescentes têm uma atenção prioritária. Esse é um mandamento constitucional. Dentre os vulneráveis, pensando aqui em idosos, pessoas com deficiência, a própria mulher, a criança e o adolescente têm prioridade”.
Entre várias situações recorrentes, a juíza Silvana ouviu vítimas que somente após 28, 30 anos de casamento foram capazes de dar um basta na relação.
Uma das vítimas contou à juíza que o marido, quando sóbrio, era um homem bom, mas, quando chegava bêbado em casa, batia nela na frente dos filhos. Então, para tentar se proteger, a mulher se trancava no quarto até que a bebedeira passasse. “Isso é vida? Mas a pessoa vive isso e isso se repete”, diz Silvana.
Ainda segundo a juíza, há casos em que o agressor dirige toda sua raiva para a mulher e age normalmente com os filhos. Ela acredita que o Estado precisa se preocupar – e vem se preocupando – em acolher esse agressor, para que ele seja tratado e possa compreender, de uma vez por todas, de que ele não pode se utilizar desses meios para fazer valer a vontade dele.
A juíza conta que já teve réus que, ao serem interrogados durante a audiência, diziam amar a mulher. “Mas que forma de amor é essa que se traduz em violência? Por que você ama e bate na mulher?”, pergunta a juíza: — ‘Ah, porque ela não faz do jeito que tem que ser feito’, obteve como resposta. “Então, isso tem que ser mudado. Porque não adianta só querer proteger a mulher se eu não mudo o agressor. O agressor tem que ser mudado”, afirma Silvana.

‘Ah, mas ele vai mudar…’

Há quem acredite na mudança do outro. “É uma decisão individual, não se muda ninguém. Pensar que se tem total influência para mudar o comportamento do outro é viver uma mentira. Se o agressor bateu uma primeira, uma segunda vez, inevitavelmente baterá na terceira, na quarta e assim por diante”,  explica o antropólogo, terapeuta holístico e professor universitário, Darrell Champlin.
Champlin diz que a causa pode ser efeito da automatização do comportamento humano. “A gente conduz a vida em reações automáticas, estamos sempre fazendo a mesma coisa. Então, se eu vivo num relacionamento abusivo, eu estou sempre vivendo um relacionamento abusivo. Se tornou o meu padrão, é meu vício. É claro que não serve para todos os casos, mas, em linhas gerais, estes são fatos reconhecidos hoje. E se descobriu que, quanto mais vezes o trauma é repetido, mais difícil fica se desvencilhar dele”.

Escrito por

Equipe Chega!

Grupo de alunos, ex-alunos e professores da Universidade Santa Cecília – FaAC, metendo a colher para conectar pessoas, ideias e lutas, dispostos a contribuir com o debate público sobre a violência contra a mulher.