Como os roteiros clichês de filmes e séries mascaram a verdadeira face de um relacionamento abusivo e influenciam negativamente a ideia de amor.

Por Amanda Oliveira e Karina Black.

Todas as vezes que assisto a alguma novela mexicana, fico pensando se existe algo tão manjado.

Não que eu seja uma grande fã, mas entre as trocas de canais da TV, BANG! Lá estão Maria do Bairro, Marimar, Usurpadora e outras tantas, suplicando a Virgenzinha de Guadalupe que lhes traga o amor…

É sempre a mesma coisa. Uma linda e inocente protagonista passa por poucas e boas por um grande romance. Acrescente à história suas origens humildes, um pai multimilionário que a rejeita e uma antagonista (geralmente a ex-vingativa de seu amado), e você terá a fórmula para uma novela mexicana completa. Ao final, lógico, o amor prevalecerá e seremos agraciados com a linda cena do casamento. Fim.

Porém, me volto para um contexto muito mais massificado e popular que nossas colegas mexicanas, a cultura pop hollywoodiana e, percebo que a realidade é mais cruel do que posso imaginar…

Curtiu o suspense? Já entrei no clima…

Imagine a cena: Uma jovem, bela e inocente Blair Waldorf caminha apressadamente por entre as ruas lotadas da ensolarada Nova Iorque (ou Los Angeles, Miami, Chicago… você decide). Ela está atrasada para seu primeiro dia no novo emprego.

Ela anda tão apressada que nem percebe que atravessa a rua enquanto os carros ainda estão passando. Quando se dá conta, um táxi amarelo se aproxima e ela não tem como desviar. Tudo o que consegue é fechar os olhos e aguardar pelo pior.

Então, sente o impacto. Ao abrir os olhos, está nos braços de um charmoso estranho, que a fita com intensidade. Ainda sem fôlego e com as pernas bambas, se levanta e percebe que está do outro lado da calçada.

Ao agradecer seu herói, não pôde deixar de notar o quão sexy ele era. Christian Grey era seu nome. Há um certo ar de um mistério em seu olhar que ela adoraria descobrir…

Passado o êxtase daquele encontro, ela segue seu caminho, assim como Grey.

Vou resumir a história e pular algumas cenas, porque sei que seu tempo é valioso e acredito que você já conheça o restante…

Enfim, ao chegar no trabalho, ela descobre que Grey trabalha no mesmo lugar. Eles vse aproximam. Se apaixonam. Ela é virgem. Ele tem um ex-namorada obsessiva.
Ele é um vampiro!

HA! Por essa você não esperava.

Continuando…

Eles têm sua primeira noite. Ele se afasta. Ela não sabe o porquê. Eles brigam. Ela descobre que tudo não passou de uma brincadeira. Ele só a usou para fazer ciúmes à ex-namorada… E pior! Ainda contou para os colegas sobre a “primeira vez”.

Ela fica desiludida. Ele pede perdão. Ela decide se mudar de cidade e recomeçar a vida. Ela vai para o aeroporto. Ele corre atrás. Lá, segundos antes do embarque, eles se resolvem e vivem felizes para sempre. Fim.

Confundi sua cabeça? Mas só de ler o texto já deve ter percebido o roteiro clichê de qualquer filme romântico. Os nomes e a história do vampiro foram só pra chamar sua atenção mesmo.

Mas, perceba que mesmo em cenários diferentes, os contextos da romantização de relacionamentos abusivos são os mesmos. Em todas as histórias temos as “mocinhas”, normalmente, garotas jovens, inocentes, recatadas, que possuem algum tipo de insegurança com relação ao próprio corpo ou personalidade e que têm dificuldades de relacionamentos com os pais.

Por outro lado, os protagonistas estão bem distantes da imagem de “bom moço” e, acredite, isso é proposital. Malícia e narcisismo são palavras que descrevem estes personagens e evidenciam o contraste entre o modelo socialmente esperado de um homem e de uma mulher. Eles também transbordam autoconfiança e um exemplo claro disso é o fato de várias coadjuvantes se sentirem atraídas por eles. Ser bonito e bem sucedido, ter uma personalidade arrogante, fria e misteriosa, são características que levam ao surgimento de uma química irresistível entre eles.

Apesar de claramente os dois personagens estarem em contextos distintos, o famoso ditado de “os opostos se atraem”, leva o público a desejar que um romance venha a acontecer entre os dois e que a mocinha seja a responsável por revelar o que levou o seu par a sentir aversão ao amor e o leve ao caminho da redenção.

A trajetória destes casais costuma ser conturbada e marcadas por agressões psicológicas e físicas, mas que muitas vezes passam despercebidas aos nossos olhos.

Por serem ficcionais, para muitas pessoas, obras assim não representam um perigo real, mas é importante lembrar que a cultura é um grande fator de influência tanto na moda quanto em discurso.

A psicóloga Rosangela Manoel da Silva (CRP:78897-06) alerta que esse tipo de conteúdo pode influenciar negativamente o público jovem, em especial os adolescentes por estarem construindo a própria personalidade.

“Vamos supor que você tem uma família que está “estruturada”. Seu pai não pratica violência contra sua mãe, mas é um pai ausente. Trabalha o dia inteirinho e não tem tempo para sentar e conversar contigo. Sua mãe é religiosa, vive dentro da igreja e não tem tempo para trocar uma ideia de mulher para mulher para você. O que acontece? Você vai crescer com uma personalidade frágil e aí, fica muito mais fácil a cultura da sociedade e a cultura do mundo entrar dentro de você. Por quê? Existem lacunas. Os filhos ficam com falta de conteúdo familiar e essa personalidade fragilizada dá abertura para essas coisas”.

A recorrência de exposição a relações abusivas de forma romantizada, leva o público a assimilar este tipo de comportamento como algo normal e esta normalidade pode levar a reprodução desses padrões, fora das telas.

“Eu estava no instagram e vi uma história de comportamento super abusivo. Na imagem, a menina caminhava com o namorado e outro rapaz ia ao encontro a eles, e ele conhecia a menina. O outro rapaz acena, eles ameaçam se cumprimentar, quando o namorado empurra a menina, a abraça e a sai puxando pelo cabelo. E as meninas embaixo da imagem comentando ‘ai amor, parece você’, ‘nossa você é ciumento’, ‘nossa parece meu marido’, então elas acham normal e isso é cultural. Tem várias músicas da Kelly Key, que eu estava ouvindo para um trabalho e ela colocava pontos de relacionamentos abusivos e todo mundo cantava. Vi várias meninas comentando ‘Ah, mas você também não faz isso? É normal. Acontece na vida de todo mundo.’ Gente, não é normal! Não é para acontecer! A falta de diálogo faz com que a cultura de massa seja algo normal para os adolescentes”, comenta a psicóloga.

Embora nos filmes, séries e livros, os relacionamentos tóxicos caminhem sempre para um final feliz, perpetuando a ideia de que isso é normal e aceitável, não é bem assim. Abuso não é amor e não deve ser romantizado.

Fora da ficção, os Chucks, Greys e Edwards podem não ser tão charmosos. Relacionamentos regados a ciúmes, possessão e controle são tóxicos e devemos fugir deles. No roteiro da vida real, um relacionamento abusivo não tem final feliz.

Escrito por

Equipe Chega!

Grupo de alunos, ex-alunos e professores da Universidade Santa Cecília – FaAC, metendo a colher para conectar pessoas, ideias e lutas, dispostos a contribuir com o debate público sobre a violência contra a mulher.