Por Beatriz Rota-Rossi

Filha de pai desconhecido, camareira, acrobata, modelo, mãe e pintora. Suzanne Valadon invadiu o feudo masculino das artes com sua notória autoconfiança 

Gilbert, Nude fixa seu cabelo, 1920 por Suzanne Valadon (1865-1938, France) | Museu De Reproduções De Arte Suzanne Valadon | WahooArt.com
“Gilbert, nua, amarra seu o cabelo” Suzanne Valadon -1920

Marie-Clémentine Valade, possivelmente escolheu o nome de Suzanne Valadon inspirada na história de “Susana e os anciãos”. Susana, na história, é assediada por velhos devassos enquanto toma seu banho. Como não aceita os convites libidinosos, apesar das ameaças, os anciãos a levam a julgamento acusando-a de adúltera. A escolha do nome diz muito do temperamento dessa extraordinária artista francesa.

Suzanne atua numa época em que a moral burguesa impera com toda sua perversidade em relação ao mundo feminino. O olhar crítico, sempre dirigido ao comportamento das mulheres, resvala sobre Suzanne que faz de sua vida o que bem entende.

Aos quatorze anos, parte com um circo e aprende acrobacias. A vida do circo, suas personagens e colorido atraía muitos artistas, como Toulousse Lautrec, que, tocado pela beleza de uma acrobata de dezesseis anos, a escolheu como modelo. Um acidente num dos saltos acrobáticos colaborou para que Suzanne deixasse o circo e se dedicasse a ganhar a vida posando. Lautrec, Renoir, Puvis de Chavannes, Degas e mais tarde Modigliani foram seus retratistas.

As sensações pelas quais passa uma modelo, vestida e principalmente nua enquanto está posando são complexas. A extrema fragilidade de ser atentamente observada aliava-se à percepção de exercer um poder concreto sobre quem a espreitava

Nessas condições, Suzanne, imóvel, viu o traçar de linhas compositivas, atentou para a marcação dos espaços, para o esboçar das formas e o delimitar de massas de cor. Longas aulas que para quem já desenhava, foram fundamentais.

” Portrait de Suzanne” ,  Toulouse Lautrec (1888) e
Blanchisseuse”, Toulouse Lautrec (1886)

Aqui aparece pintada por Toulouse-Lautrec. É ele foi primeiro a ver os desenhos de Suzanne Valadon, encorajando-a a estudar pintura e apresentando-a a Degas, que se converteu em seu mestre. 

“No Banho”, Edgard Degas (1888) e “No Banho”, Edgard Degas (1889)

Degas a retratou vestida ou nua em quadros magníficos. Os temas que vemos acima representam a herança deixada pelos realistas, à qual os impressionistas permanecem fieis. Abandona-se a representação da mulher como a cortesã desejável ou a constante protagonista em temas mitológicos, tão caros ao gosto burguês, que se deleitava com a pintura acadêmica.  A vida do dia a dia com suas tarefas nada líricas, é o tema abordado em clara oposição ao gosto imposto pelo academismo.

11 retratos de prostitutas feitos pelos grandes mestres da pintura
“Mademoiselle O´Murphy”,  François Boucher – 1845
4364x2528 px Alexandre Cabanel Arte clássica nu pintura a óleo The Birth of Venus
  “Nascimento de Venus”, Alexandre Cabanel – 1863

Suzanne é a modelo preferida de Renoir,  que a pinta com todo o frescor de sua juventude. Em alguns quadros repete sua imagem como é no caso de “Baile no Moulin de La Galette” onde a vemos em primeiro plano com vestido listrado e mais atrás, no casal iluminado que dança.

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 “Baile no Moulin de La Galette”, Renoir – 1876
“Baile em Bougival” e “Baile na Cidade” – Renoir (1883)

Em 1883 Suzanne dá à luz um filho de pai desconhecido, Maurice Valadon, que será adotado por Miguel Utrillo um amigo de Suzanne. Maurice atinge alto  reconhecimento como pintor das ruas de Paris, conhecido como o grande Maurice Utrillo

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Mãe e filho moram em MontMatre e têm uma ligação afetiva indissolúvel, apesar das idas e voltas a manicômios e casas de saúde.  Utrillo torna-se alcoólico aos 12 anos de idade. Mas Suzanne não abandona a pintura nem a independência que lhe era tão cara. 

Continua divertindo-se nos antros de má reputação, coleciona amantes como o famoso músico Erik Satie com quem teve uma relação tumultuada. Satie diz: “Eu sentia que assim que eu a tomava nos meus braços ela já não estava ali. Eu não podia suportar isso”. Essa relação custou caro aos dois. Na apresentação da peça de Elyane Antagnague “Satie – Valadon Je te veux” se lê: “A arte é o centro de suas vidas. Enquanto um compõe ao piano a outra pinta, mas além desse ponto em comum, tudo os coloca em oposição, suas personalidades, seus meios sociais, seus diferentes olhares perante a vida e em relação a seus próprios corpos. Nenhum dos dois sai indene desse encontro.”

Degas reconhece o talento de Suzanne e confessa que ela é melhor do que muitos pintores que tomam parte no grupo e a convida a integrar a Société Nationale des Beaux-Arts.

A amiga e galerista Berthe Weil ajuda Suzanne a participar de 19 exposições entre 1913 e 1932. Soma-se a isso, três retrospectivas individuais. Participou no Salon des Indépendants, em 1912, e do Salon d’Automne em 1919. Como vemos, trata-se de um talento reconhecido e respeitado no seu tempo, no entanto, ela praticamente inexiste como artista nas enciclopédias do século passado. Se conhecemos seu nome é pelo fato de ter sido modelo preferida de pintores de renome, mãe de Utrillo e amante de Satie. Sua “má conduta” é tema de muitos escritores, mas até os finais do século XX, não encontramos o que verdadeiramente interessa: Suzanne, a grande pintora.

Devido à primeira Guerra Mundial, Paris sai do foco de interesse da mídia e dos escritores. E então a história de Suzanne como pintora se esvai até cair no esquecimento. Mas por que o nome de seus pares mantém o interesse do público? A resposta a esse aparente esquecimento é simples e a conhecemos bem: Suzanne é mulher.

Ela pinta naturezas mortas, paisagens e retratos mas o que chama a atenção é sua abordagem do corpo nu. No ambiente pós impressionista, onde transita a obra de Van Gogh, fala-se dela com adjetivos como rigidez, disciplina e sinceridade no trabalho. No entanto, a sociedade burguesa fica chocada com a sua arte, que assim como sua conduta sexual, desafiou convenções.

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“Moça” , Suzanne Valadon -1910

Influenciada pela cor de Henri Matisse, Valadon confere ao nu feminino e masculino uma veracidade impressionante. A linha contínua e forte com que recorta suas figuras escancara a condição humana dos modelos. Não há aqui cumplicidade alguma com o que seria considerado aceitável. Mostra os pelos pubianos, os das axilas, a crueza de músculos endurecidos na lida do dia a dia, ou por vezes flácidos pelo passar dos anos. A verdade, conforme a crítica da época, é o que dá valor e potência a sua obra.

” (…) um belo desenho nem sempre é um desenho bonito – mas sempre carne viva e bela justamente pela vida que a anima, fresca porque sente-se o sangue circulando à flor da pele─ (…)”

A mesma verdade se manifesta nos seus autorretratos, como num dos últimos. A estonteante beleza a abandona. Cabelos ralos, seios caídos; perde a voluptuosidade dos lábios e a doçura do olhar.  Resta a força da mulher inquebrável e com um leve toque de pincel a lembrança dos belos olhos azuis.

Suzanne Valadon, Auto-retrato – A primeira de 1883  e a segunda de 1936

Em “Adão e Eva”, Suzanne ousa pintar um nu masculino frontal. Numa crítica bem-humorada ao puritano olhar da sociedade, cobre o pênis de Adão com uma tiara de folhas de figueira. 

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Adão e Eva, Suzanne Valadon – 1909

No quadro “La Joie de Vivre”, Suzanne também brinca com a moral burguesa. Um grupo de mulheres, depois do banho no rio, está se enxugando quando um homem aparece. Uma das figuras faz uma pose caricata, imitando as poses acadêmicas para nus femininos. O homem está com frio, enquanto as mulheres continuam com seus gestos ignorando sua presença.

Aqui vale uma explicação à pergunta: Porque no final do século XIX e começo do XX há tantas obras de gente tomando banho? Nessa época, a medicina dá um grande salto, basta lembrar a descoberta das vacinas, dos anti-térmicos, da anestesia e tantas outras. Folhetos impressos sobre a importância da higiene são espalhados entre a população e os pintores vêm um tema ótimo para seus quadros, afinal estamos falando de realismo. 

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“La joie de vivre”, Suzanne Valadon- 1911
Reclining nude, 1928 - Suzanne Valadon
“Nu deitado”, Suzanne Valadon – 1928
Nude on the sofa, 1920 - Suzanne Valadon
 “Nu no sofá”,  Suzanne Valadon –  1929

Suzanne mantém vida matrimonial por 13 anos com Paulo Moussis, um homem rico que lhe proporcionou uma vida mais calma para ela e para seu filho. 

Aos 44 anos, se apaixona pelo pintor André Utter, de 23 anos de idade, amigo de seu filho, com ele casa em 1914. Utrillo, Valadon e Utter são considerados “o trio infernal”. Compram um castelo ─ os quadros de Utrillo vendiam como água ─ Apesar das disputas e das bebedeiras homéricas do filho, esta época foi para os três de uma energia criativa extraordinária.

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Suzanne Valadon, “ L’avenir devoilé ou La tireuse de cartes” – 1912

Na “Jogadora de Cartas” Suzanne retrata uma mulher nua em perspectiva, um tanto distorcida para mostrá-la em toda sua voluptuosidade.  Ela está deitada sobre um sofá vermelho aparentemente despreocupada, oferecendo ao espectador a contemplação do seu maior triunfo; sua autoconfiança. Não há erotismo passivo, ou sorriso picaresco, mas o apelo sexual da força de uma mulher dona de si. É ela, é Suzanne que observa a rainha de diamantes, a carta mostrada por uma mulher vestida de negro como corresponde às pitonisas.

Suzanne Valadon morreu em 7 de abril de 1938. Foi enterrada no Cimetière Saint-Ouen, em Paris.  Amigos, curiosos e artistas acompanharam o féretro, como Andre Derain, Pablo Picasso e Georges Braque. 

Chego ao fim deste artigo com a sensação de um dever não cumprido. Sensação desagradável que acompanha todos meus estudos biográficos, especialmente os que se referem às pintoras. Mas a final, como pode uma vida caber em poucas palavras escritas?

Deixo vocês com as palavras de Suzanne pouco antes de morrer “Meu trabalho está terminado e a única satisfação que ele me deu é que eu nunca me rendi. Nunca traí nada em que acreditei.”

Me acompanharam nesta viagem pela geografia humana de Suzanne Valadon

Elaine Todd Koren, com seu romance Suzanne of love and art, publicado em 2001, Sarah Baylis que publicou Mãe de Utrillo lá pelos anos 90 e Timberlake Wertenbaker ‘s em  A Linha,  publicado em 2009 em que tenta deixar clara a relação de Suzanne Valadon e Degas.

Além das leituras nos links abaixo, que me guiaram para constatar dados biográficos e capturar obras documentadas:

https://www.mchampetier.com/biografia-Suzanne-Valadon.html

http://www.universdesarts.com/biographie/36/valadon-suzanne.html

http://www.moreeuw.com/histoire-art/suzanne-valadon.htm


Escrito por

Beatriz Rota-Rossi

Beatriz Rota-Rossi é artista plástica, professora de História da Arte, Estética da Comunicação  e Cultura Contemporânea. Autora do livro "Da Gravura ao Grafite- Biografia de Alex Vallauri" editora Olhares , entre outros.