Debate e oficinas marcam segundo evento do Chega!

  • Artigos

Com o tema “Dores de amores – Como identificar parceiros abusivos?”, Observatório discute a importância da comunicação e identificação dos sinais de violência contra a mulher

Por Jane Freitas*

A dificuldade de falar ‘não’ e perceber atos que ferem o físico, o psicológico e a dignidade da pessoa humana, se tornaram cada vez mais frequentes.

Às vezes, a violência vem mascarada em demonstrações de ciúmes, imposições e chantagens emocionais. Por amor, mulheres e meninas, independentemente da faixa etária e classe social, não se dão conta da realidade, isolando-se em si mesmas.

O resultado são os aumentos cada vez mais apavorantes de feminicídios, suicídios, depressão e transtornos de ansiedade.

A respeito desse alerta e conscientização, o Chega! Observatório Unisanta da Violência Conta a Mulher, realizou no último sábado (7), oficinas e roda de conversa para falar relacionamento abusivo.

Debate Dores de Amores: Como identificar parceiros abusivos? teve como participantes Karina Black, Diná Ferreira, Liliane Rezende e Luciana Gonçalves, e como mediadoras Raquel Alves e Nara Assunção. Foto: Eliana Greco

Para a coordenadora do programa de Justiça Restaurativa de Santos, Liliane Rezende, é de extrema importância propiciar debates como esse para dar vez e voz à todas as pessoas, de modo a ouvir as necessidades, carências e, a partir de então, pensar em possibilidades de melhorias para a situação.

“O diálogo é fundamental para a construção de ideias. Poder ouvir as pessoas sem julgá-las e aceitar a fala que ela traz. Muitas vezes, dentro desses espaços, do processo circular, as pessoas falam muito da sua dor, e é importante ter uma confidencialidade ali”.

Liliane Rezende

Comunicação e sensibilização são fundamentais para se entender o percurso da violência, suas raízes e soluções para exterminá-la.

Dentro do relacionamento abusivo, os ciclos de violência podem acontecer em períodos longos para, posteriormente, se estreitarem. Contudo, como o próprio nome diz, voltam a se repetir.

Diná Ferreira Oliveira, Coordenadora do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, de Santos, e participante do evento, chamou a atenção para que a mulher passe a identificar e a perceber tudo aquilo que tira a liberdade dela, a tudo aquilo que magoa, machuca, e que é preciso questionar. “Eu acredito que, em algumas situações, a mulher levantar essa questão, pode até resolver. Se o homem não estiver percebendo de que aquilo que ele está fazendo está magoando a mulher, está cerceando a liberdade dela.  Então acho extremamente importante a gente discutir sobre a identificação desses comportamentos”.

Outro ponto abordado foi em relação às meninas que estão iniciando a vida afetiva e sexual. Desconhecendo os sinais abusivos que, incialmente, são sutis, se deixam fotografar em momentos íntimos e acabam manipuladas, sem ao menos ter consciência do que está ocorrendo.

Essa questão, contou com a participação de jovens presentes no debate e pela psicóloga Luciana Maria Gonçalves Gonzaga, que alertou para o fato ao ouvir relatos, em sua experiência de trabalho, sobre problemas emocionais causados pela falta de informação e percepção.

“Hoje a gente viu como está sendo preciso falar. Acho que as meninas não percebem mesmo. Elas percebem o sofrimento mas não que estão em um relacionamento abusivo. Então, chega em mim o transtorno de ansiedade e a depressão. Aí eu vou ouvindo as histórias de violência. Eu acho que é muito importante a gente conversar porque, realmente, elas não processam uma relação abusiva”.

Ao identificar os sinais de violência e buscar meios para sair deles, para muitas mulheres, é arrancar uma venda que cobre o olhar e passar a enxergar verdadeiramente a realidade e, com ela, a própria libertação.

A conscientização é o primeiro passo que conduz a essa liberdade, e em seguida, dar um basta definitivo às dores e sofrimentos.

Coautora do livro Amarras Invisíveis, a jornalista Karina Black, percebeu por meio de sua experiência pessoal nas entrevistas com vítimas de violência doméstica que ainda existe uma grande desinformação. Para ela, quando a gente se propõe a conversar sobre o assunto, se torna uma forma de abrir os olhos das pessoas. A jornalista explicou que se as mulheres não tiverem informação, os parceiros abusivos ganham confiança, aumentando o nível de abuso e agressão.

“Algo que eu percebi em muitas vítimas é que muitos traumas são irreversíveis e os processos de restauração, às vezes, muito lentos. Têm marcas psicológicas que elas (vítimas) não conseguiram apagar. Então, eu acho que antes de a gente chegar no estado desse nível, ou em um feminicídio, a conversa, a disseminação é um caminho”.

Karina Black

Arte e comunicação na prática

Além do debate, o evento contou com duas oficinas que levaram interatividade e reflexão a respeito do papel da mídia no combate à violência contra a mulher. A primeira, sobre Comunicação Combativa, foi ministrada pela jornalista Sarah Mascarenhas e pela mobilizadora da ONU Mulheres, Marina Machado. A partir de um varal de notícias, publicadas originalmente em jornais, revistas e sites, os participantes puderam perceber construções textuais que culpabilizam e reforçam prejulgamentos e preconceitos em relação à mulher e ainda abrem caminho para as fake news.

Oficina reflete sobre as construções textuais que culpabilizam as mulheres. Foto: Eliana Greco

Sarah Mascarenhas explicou que a oficina leva à reflexão crítica em torno do consumo das notícias publicadas. Para ela, o leitor – consumidor final pode contribuir para a manutenção ou diminuição da violência contra a mulher e, dentro dessas atividades, a tentativa é de ressaltar para os participantes terem muito cuidado na leitura e reprodução dessas notícias.

“A gente propõe uma atividade de reescrita de algumas notícias que a gente seleciona e traz para os participantes. Então, num segundo momento, como elas deveriam realmente estar publicadas”.

Sarah Mascarenhas

A jornalista relata que é devido a isso a descredibilização da mídia atualmente. As notícias falsas ganharam força e o ser humano já não é mais um ponto de importância dentro disso. É vendido produtos, conteúdos e não informação útil com mudança de pensamento – de onde surgiu o Jornalismo – para propagar a informação à população, contar histórias do que está acontecendo.

Sarah disse também que é preciso falar da diminuição da violência contra a mulher   – ou ilustrar isso – de  maneira que a coloque num lugar de dignidade, integridade e não de vulnerabilidade, exposição e culpabilização.

Marina Machado, Mobilizadora da ONU Mulheres, salientou a importância da Comunicação Combativa sobre transformar a notícia em uma forma de combater a violência tanto das mulheres e das meninas, quanto das violências contra gêneros, raças e as demais que existem em todos os níveis. Segundo ela, a oficina tem o foco da reescrita: Como eu respondo um comentário no Facebook? Como eu posto uma história que aconteceu comigo? Como eu relato acontecimentos? Como eu coloco a mulher num lugar de proteção à violência e não de vítima?

A Mobilizadora acredita que pode-se viver a equidade de gênero a partir do momento em que se olhar para a desconstrução do sistema econômico.

“Não existe igualdade dentro do capital. Então, qual é o recurso, qual é a saída que nós temos? É interseccionalizar as lutas. Não existem lutas de classe, de gênero, de raça. Existe a luta pela equidade do ser humano, independentemente, se ele é homem ou mulher. Se a gente começar, a partir do pressuposto, que é preciso modificar o sistema que a gente vive, chegaremos ao feminismo um dia”.

Marina Machado

A segunda oficina da tarde foi a de Lambe-Lambe. Com técnicas de colagem, criatividade, papel e cola os participantes uniram sentimentos e pensamentos à arte.

Ministradas por três estudantes e idealizadoras do Coletivo Diz Aí, a oficina também trabalhou com o tema da violência contra a mulher.

Oficina de Lambe ativista foi conduzida pelo coletivo DizAí.
Foto: Eliana Greco

Mariana Castro, estudante de Psicologia, vê no Lambe uma potencialidade de veículo de comunicação de fácil acesso, por ser feito de forma digital, escrita ou cópias. “Vale lembrar que o Lambe é proibido de ser colado em locais públicos. Mas, em locais privados, ele super funciona e não perde sua potencialidade. Aliás, é mais uma amostra disso. Se não fosse tão potente não seria proibido”. 

Já a estudante de Arquitetura e Urbanismo, Ysadora Lourenço, diz que falar sobre violência contra a mulher por meio do Lambe é uma forma de ativismo também.

Ysadora conta que em duas outras oportunidades que tiveram de realizar a oficina, surgiram temas relacionados à violência doméstica e questão do parceiro, violências sofridas pelas mulheres ao serem menosprezadas no mercado de trabalho, falta de credibilidade e até fatos da masturbação como tabú.

A terceira integrante do Coletivo, Ana Spina, estudante de Psicologia, relatou que é triste, em pleno 2019, ainda ser preciso falar sobre a violência contra a mulher, assunto que, para ela, não foi desconstruído.

Ana disse que ao receberem o convite do Observatório Chega para abordar a temática por meio do Lambe, encontraram uma possibilidade de falar mais sobre esse assunto.

“A gente aceitou logo de cara porque combinava muito com a nossa proposta quanto Coletivo, quanto oficina e quanto seres humanos individuais, também. Pra gente está sendo incrível estar aqui”.

Ana Spina
Banda Cherry finalizou a programação do sábado com letras que também falam sobre relacionamentos abusivos. Foto Eliana Greco

*texto publicado em www.boqnews.com

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *