Ana Paula: "não sobre tempo para mim"

Ana Paula: “quase não sobra tempo para mim”

Elas estão entre as mais impactadas pelas mudanças trazidas pelo coronavírus. Na semana que celebra a mulher, o Observatório Chega! ouve as professoras, às voltas com o cansaço e ansiedade gerados pelo distanciamento social e aulas virtuais

  • Por Eduardo Russo

Ser mulher, mãe e ter uma carreira não é tarefa fácil em tempos de pandemia. E para uma professora gestante, é ainda mais complicado, afinal os cuidados para não contrair o vírus são triplicados e a ansiedade em torno do parto também aumenta, diante do ambiente conturbado nos hospitais e espaços públicos.

A professora Ana Paula Almeida Teodoro, grávida de dois meses e professora em um colégio particular de Santos está tão aflita com os protocolos de autocuidado que é obrigada a seguir e as novas formas de se lecionar, que quase não tem momentos para si. “Consigo contar quantas vezes consegui andar ou ouvir uma música, coisas simples, que muitas vezes estão na palma da mão. Desde que descobri a gravidez, caminhei duas vezes na praia, mas dá muito medo, tem que ser em horários que está mais vazio, bem cedo, mas também começo a trabalhar às sete horas da manhã, então fica um pouco mais complicado. Os momentos em família, de estar com a minha mãe celebrando a vida, assistir a um filme e estar com meus dois cachorros têm sido meu lazer”, desabafa.

Pesquisa realizada pelo Instituto Península (IP), no ano passado, após sete meses de pandemia, revelou que a maior parte dos docentes se sentem ansiosos (64%) e sobrecarregados (53%).

No caso de Ana Paula não foi preciso procurar um psicólogo, mas para fazer a adaptação do ensino presencial para o ensino remoto foi necessária uma suplementação para que a professora de Ciências da Natureza entendesse o que era possível fazer dentro dos limites possíveis. Para se fortalecer, ela tomou vitaminas para melhorar a qualidade do sono, vem cuidando melhor da alimentação – procurando alimentos mais naturais- e passou a monitorar o horário do dia em que conseguiria tomar sol da janela de sua casa.

Porém, o maior medo profissional de Ana era de não dar conta de todo o trabalho que precisava fazer, pois não era capaz de se entregar 100% aos alunos no ensino remoto inicialmente: “Tenho uma personalidade exigente, me cobro muito. Então, mesmo nesse ambiente remoto, eu não me colocava naquilo que era possível, mas naquilo que era ideal. Eu buscava o ideal e não o que era possível.

“Foi uma luta constante com a mente para eu entender que muitas vezes eu iria dar o que era possível mesmo e que estava tudo bem.

“Acho que em primeiro lugar essa foi a minha maior luta, o meu psicológico. Chegar a momentos que a mente está vazia, de você não conseguir produzir, e aí fica dando desespero, angústia, ansiedade, insônia, então o emocional foi forte”. Ana também teve que ver sua mãe, cabeleireira, deixar de trabalhar para cuidar da avó, de 82 anos, que tem Mal de Alzheimer.

Educação infantil

A professora Valéria Barroso dos Santos também teve que se adequar para continuar a dar aula para as crianças da fase II da Educação Infantil (fase 2), em uma escola da Vila Margarida, em São Vicente.  Muitos foram os obstáculos que ela teve de encarar para proporcionar a melhor educação possível para seus alunos. “Aprender a usar as ferramentas tecnológicas e obtê-las, contar com a parceria das famílias, aprender uma nova rotina e ensiná-la aos pais e crianças e dividir o tempo que tinha com a casa, a filha, o marido e as aulas foram as maiores dificuldades”.

Os horários das aulas de Valéria coincidiam justamente com as aulas da filha, de 12 anos, das 7 às 12 h15. Foi preciso uma reorganização na rotina da casa para que ambas pudessem estar concentradas em suas respectivas “salas de aula” ao mesmo tempo. Na casa há dois notebooks, mas às vezes mãe e filha tinham que dividir o celular para conseguirem fazer todas as tarefas do dia.

A escola ofereceu suporte para que Valéria conseguisse dar aulas remotas. Os alunos podiam contar com um blog para todos os anos escolares, onde o acesso era livre e cada professor colocava o conteúdo de acordo com o plano pedagógico. Além disso, a unidade escolar contava com as apostilas impressas para que os pais pudessem buscar caso precisassem.

Valéria conta que os pais preferiam mesmo o Whatsapp. “Tínhamos o Facebook, as apostilas, o blog e o Zoom. Eu enviava vídeos e até imprimia as atividades para quem não tinha acesso, mas o Whatsapp se revelou o recurso ser rápido. Mandava as aulas todos os dias e toda sexta-feira fazia aula ao vivo com as crianças, muitas vezes estendia esse “ao vivo” para os sábados, a fim de contemplar mais alunos”.

De acordo com Valéria, as crianças não pararam de interagir, apesar de algumas terem mais dificuldades no ensino remoto. Na educação infantil, os professores dependem muito dos pais para que as crianças consigam ter um bom aprendizado. Todas as atividades e brincadeiras, segundo a educadora, realizadas eram feitas com base no documento Campos de Experiências da Base Nacional Comum Curricular.

Porém, mesmo com todo esse preparo, Valéria sentiu bastante a modificação em sua rotina. “Fiquei abalada com a nova maneira que foi imposta, pois ficou tudo misturado. Tive que me adaptar e aprender. Sentia falta de me arrumar e passar batom”, conta.

Para ganhar um pouco mais de autoestima, Valéria passou a se arrumar para fazer os vídeos e seu marido sempre telefonava para dar o apoio necessário. Com relação ao cansaço da nova forma de se trabalhar, a professora conta que não tinha muita coisa a ser feita. Alguns cursos on-line foram feitos para o aprimoramento da profissional, e livros foram comprados, tudo isso com o intuito de permitir que Valéria se ocupasse.

 Preparo

As escolas da Rede Infantil ainda não voltaram às aulas de forma presencial nas cidades da Baixada Santista. A Secretaria da Educação de Santos vem promovendo reuniões com alguns profissionais e reforçando os protocolos pedagógicos foram usados para garantir segurança no retorno às aulas, dentro do possível. A Seduc contou com a ajuda de duas profissionais da Justiça Restaurativa para atuar no acolhimento com aos professores, preparando-os para a volta às aulas por meio de atividades como técnicas de respiração e roda de conversas

Ainda assim, 537 professores da rede foram afastados por fazerem parte do grupo de risco da covid-19, fazendo com que 2.766 docentes pudessem trabalhar no sistema gradual híbrido, que reveza aulas presenciais com aulas remotas.

Recado para as mulheres

A professora Ana Paula Almeida deixa um recado para as mulheres. “Essa semana eu vi uma frase de uma colega educadora, mãe de duas crianças, um menino e uma menina, onde ela dizia que educar os filhos é uma missão, é um trabalho muito complexo, ainda mais quando você tem uma menina e um menino. A menina você geralmente educa para que ela seja forte, para que ela seja dura, e o menino não. Você educa para que ele seja doce e carinhoso.  Isso me fez refletir muito na nossa posição enquanto mulher na sociedade: o quanto fisicamente e mentalmente nós temos que estar sempre ali na frente, nos colocando sempre em uma posição à frente em relação à segurança e à estabilidade.

“Falamos tanto em respeito, em amor e em autocuidado, mas às vezes a gente esquece que o autocuidado começa dentro de nós mesmos”.

Escrito por

Equipe Chega!

Grupo de alunos, ex-alunos e professores da Universidade Santa Cecília – FaAC, metendo a colher para conectar pessoas, ideias e lutas, dispostos a contribuir com o debate público sobre a violência contra a mulher.