Jornalista, pesquisadora e colaboradora deste Observatório Chega!, Beatriz Viana joga luz sobre um tema pouco discutido: os estereótipos de gênero em torno da mulher jornalista no cinema

Para chegar aos nove filmes detidamente analisados em “A mulher jornalista no cinema”, Beatriz dos Santos Viana teve que assistir a mais de 90 filmes, de vários gêneros e nacionalidades para entender em primeiro lugar qual o papel que o cinema tem dedicado ao jornalismo dos anos 1940 para cá. O livro, lançado no último mês de agosto pela Editora Appris, passeia por muitos clichês hollywoodianos e convida a refletir acerca da representação da mulher jornalista na telona, um perfil que transita entre o cômico e o ingênuo.

Enviamos três perguntas para Bia Viana para, através das respostas, tentar rastrear as motivações e descobertas da pesquisa.

Três perguntas para Bia Viana
  1. Por que você escolheu investigar a tríade mulher-jornalismo-cinema?

Eu tinha um vínculo muito forte com estudos de estereótipos de gênero, desde 2018, quando abordei o tema na Assembleia de Jovens da ONU. No mesmo ano apresentei um artigo em um congresso acadêmico tratando dos estereótipos no cinema. Já tinha ideia de investigar os papéis sociais e estereótipos em torno da mulher. Quando me debrucei sobre a questão do personagem jornalista no cinema foi que percebi essa lacuna nos estudos com essa perspectiva. Sabemos que estereótipo, por mais que esteja inserido numa peça artística, um livro, um filme, produz um efeito real, produz uma percepção desse indivíduo na sociedade. A premissa surgiu daí.

2. O cinema, na sua opinião, colabora para reforçar os estereótipos ligados à mulher? Quais os principais? 

Em toda a extensão da pesquisa, e foram dois anos de trabalhos, revisões, entrevistas, análises de filme, eu assisti não só filmes relacionados à mulher protagonista jornalista, mas todos que tivessem a inserção do jornalista na narrativa. Peguei desde Cidadão Kane até The Post, para depois fazer a triagem dos filmes que tinham só protagonistas mulheres incluídos no recorte de 50 anos para cá. Os nove escolhidos são block buster, ou campeões de bilheteria pelo mundo. A partir desse recorte, traçamos vários parâmetros de análise nas várias situações em que a personagem é colocada. Analisamos também os gêneros fílmicos e a mulher jornalista aparece em muitas comédias, comédias românticas, é vista como uma figura mais cômica, engraçadinha, não como uma figura séria, não é heroica, como é o padrão dos filmes de jornalistas com protagonistas masculinos. O perfil geral mostra estereótipos baseados na visão masculina. Isso nos leva a reflexões sobre como falta uma direção feminina. Como faltam mulheres para retratar mulheres. Estamos sendo muito mal retratadas.

3. Acha que a chamada quarta onda do feminismo está ajudando a desconstruir essas personagens estereotipadas?

Acho que o cinema reforça principalmente estereótipos de gênero, fomentando papéis sociais para as mulheres, criando personagens engessadas e diálogos sempre voltados ao universo masculino. A quarta onda do feminismo tem uma forte expressão nas redes sociais. Acredito que esse momento que vivemos toca nos assuntos anteriormente “intocáveis”: representatividade, diversidade, identidade… Com essas pautas em relevância e o alcance ilimitado proposto pelas redes, com certeza torna-se mais frequente a prática de desconstrução do cinema, reflexões e análises dos discursos propostos pelos filmes.

Escrito por

Equipe Chega!

Grupo de alunos, ex-alunos e professores da Universidade Santa Cecília – FaAC, metendo a colher para conectar pessoas, ideias e lutas, dispostos a contribuir com o debate público sobre a violência contra a mulher.