Estar na sala de aula é entender os não ditos, os silêncios.

Professora e jornalista Paula Denari estreia no Observatório Chega

Pensar em violência contra a mulher quando se está todos os dias na sala de aula, vai além de uma preocupação com o corpo, com meu corpo, com o corpo da minha filha. Estar na sala de aula é entender os não ditos, os silêncios. É confrontar valores que os meninos e meninas trazem de casa, é parar uma aula diante de uma piada inadequada, é quebrar barreiras, duras barreiras. Muitas vezes isso cansa. Muitas vezes, na exaustão cotidiana, preferimos não ouvir. Preferimos a frieza da aula conteudista e “focar no que importa”.

O problema é que a sala de aula deve ser sempre local de transformação, de gritos, de debates.

Em uma época em que somos acusados de marxista, sexista e outros “istas”, ser professor torna-se um ato revolucionário. Ser professor e posicionar-se torna-se necessário. E, nesse cenário, não dá para aceitar que um menino segure o braço da namorada no corredor. Que a aluna fique constrangida diante de assobios ao entrar na aula com um shorts curto. Mais ainda, não dá para aceitar que a escola exija uniforme das meninas e seja liberal com os meninos, sustentando um discurso machista e autoritário.

Não dá para aceitar que um professor de universidade faça piadas com alunas e que essas meninas, ao reclamarem, sejam questionadas quanto a sua vestimenta. Não dá para aceitar que meninas se chamem de putas, vacas e outros termos que nos foram embutidos para que víssemos a outra sempre como rival. Não dá para aceitar.

E, como disse, cansa. Cansa explicar que a piada não tem graça, cansa discutir com meninos que foram criados sobre uma tutela machista, cansa o enfrentamento.

No entanto, ouvir o eco de meninas tão novas, mas tão conscientes de quem são nos recoloca na luta. É nessas meninas (e meninos) que eu me descubro, elas que me mostram o inaceitável, me dizem o que eu posso. Porque para elas não há o mais ou menos: o não é não. Para elas, não há ‘coisa de menina’, o ‘se dar de respeito’, o ‘ter modos’. Na inquietação da juventude é que eu, a mesma mulher, mãe e professora, me permito redesenhar quem sou. E redefinir a mulher rascunhada por uma geração castradora.

Por isso, agradeço a essas meninas que cruzaram meu caminho: Brunas, Clarices, Anas, Ágathas, Marias, Karinas, Amandas, Bias e tantas outras. Vocês me fizeram uma professora melhor e, mais importante, me fizeram uma mãe melhor para a Elis.

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