Herança biológica e emocional influenciam a tomada de decisão. Na complexidade das relações humanas, agressores e agredidos carregam históricos traumáticos que se perpetuam ao longo da vida

Por Jane Freitas

Cada pessoa carrega um universo dentro de si. Muitas vezes, mergulhar nesse interior misterioso e complexo é um desafio e tanto. Mas procurar entender seus meandros é o caminho mais seguro e confiável para encontrar as respostas que tanto questionamos. Mexer em feridas passadas não significa voltar a sangrá-las, e sim, limpá-las para que cicatrizem.

Traumas todo mundo tem. Carregá-los, ao longo da vida, como um fardo doloroso e pesado é opcional.

Raízes, molduras e downloads

Além dos casos de violência contra a mulher que tomamos conhecimento seja em conversas, convivência, na televisão ou lidos nos jornais, há inúmeros outros silenciosos, omitidos pelas vítimas por medo, desconhecimento de auxílio, dependência emocional, financeira, entre tantas outras possibilidades.

Sabemos que cada caso é único. Mas, falando em linhas gerais, o histórico de vida da vítima – e também do companheiro –  podem ser os mesmos, analisando pelas questões emocionais, biológicas e culturais, que fazem toda a diferença no comportamento de ambos, no seguimento da relação e na forma de tratamento. São condutas e atitudes que influenciam até se a vítima, após sofrer agressões e realizar a denúncia, decidir por voltar com o agressor.

Para compreender as possíveis origens dessa questão, o Observatório Unisanta conversou com o antropólogo, terapeuta holístico e professor universitário, Darrell Champlin, que mediante seus conhecimentos profissionais, fez uma abordagem sobre o assunto.

Para ele, se a mulher resolve voltar ou não para o relacionamento,  depende de uma coletânea de condições. “A ideia é que a gente herda de bisavós, avós, pai e mãe um determinado tipo de comportamento.  Inclusive, há quem chame isso de ‘impressão matricial em nascimento’.  Então, a gente recebe uma carga, uma herança emocional e biológica, vinda dos nossos ancestrais, literalmente”.

Segundo o antropólogo, do zero dia de vida até os seis anos de idade, o ser humano está sendo moldado, psicologicamente, para como lidar com a vida. É o o que se chama de ‘sistemas de crença’, um download de informações sobre o que é viver e o que é certo ou errado. “Este período de infância é importantíssimo. Descubriu-se, não muito tempo atrás, os efeitos dos traumas sofridos nessa fase, chamados de ‘efeitos adversos de infância’. Eles moldam como a gente vai reagir a estímulos traumáticos ao longo da vida, e pro resto da vida. A não ser que a gente, intencionalmente, mude isso”.

A violência doméstica é multifacetada – são inúmeras causas e possibilidades.

O conjunto de condições psíquicas formadas desde cedo são trazidas para a fase adulta juntamente com a inabilidade de lidar com traumas.

É comum que o abusador, agressor, tenha sido abusado, agredido quando era criança. Um legado que vem, às vezes, de duas, três gerações. Nesse contexto, ele se encontra com pessoas as quais se envolve emocionalmente e que também foram abusadas – nem sempre fisicamente – mas que sofreram violências psicológicas:

— “Ah, você não presta pra nada. Você é menos que todo mundo. Você é ruim. Você não consegue fazer isso, fazer aquilo. 

Então, esse casal se forma porque um perpetua e o outro aceita”, enfatiza o antropólogo.

Vamos compreender melhor

Isso, segundo Champlin, ajuda a entender casos de mulheres que sofrem violência, mas não conseguem procurar ajuda, denunciar ou abandonar de vez aquela relação.

O antropólogo explica que o corpo humano, em determinadas circunstâncias, gera produtos bioquímicos como o cortisol, a adrenalina, oxitocina e neropinefrina que dão prazer e dor, estresse e calmaria. Ao sofrer ou sentir felicidade, cria-se no corpo uma reação condicionada – e essa reação é da bioquímica, que gera vício.

“Não é força de expressão.  A pessoa gosta da dor, e isso não é consciente. Mas é como se o corpo dissesse: — Escuta, vem cá, eu tô tão acostumado com isso que eu preciso da minha dose.  E terá gente que ao ouvir uma frase como essa  vai dizer ‘que absurdo!’. Mas o fato é que o corpo tem um conjunto de reações bioquímicas que são viciantes”.

Outro ponto importante a ser compreendido é como funciona o nosso sistema nervoso. Em situações extremas onde a vítima se encontra diante de uma agressão, por exemplo, os sistemas nervosos simpático e parassimpático ficam congelados. O sistema simpático é a parte que reage para um estímulo de fuga ou luta contra o agressor. Já o parassimpático é responsável por gerar calma.

No ser humano,  descobriu-se uma teoria chamada Teoria Polivagal, que é quando os dois sistemas entram em congelamento. “Sabe aquela história da mulher que fala ‘eu fui estuprada e me culpo até hoje porque não consegui reagir’?, foi devido a esse congelamento. Os sistemas simpático e parassimpático pararam e a pessoa congelou. Isso, muitas vezes, é resultado de repetição de eventos traumáticos durante a vida que fazem com que o nosso sistema nervoso paralise, em resposta a certos tipos de estímulos, e não conseguimos reagir”, completa Champlin.

Escrito por

Equipe Chega!

Grupo de alunos, ex-alunos e professores da Universidade Santa Cecília – FaAC, metendo a colher para conectar pessoas, ideias e lutas, dispostos a contribuir com o debate público sobre a violência contra a mulher.