Presa, perseguida, torturada, artista inglesa encontrou no México o clima de total liberdade para expressar sua ousadia criativa

Por Beatriz-Rota Rosssi

Da série “Onirismo em bronze”, 2005

Entre 1934 e 1940, o presidente mexicano Lázaro Cárdenas implantou um governo de profundas reformas. Nacionalizou o subsolo para evitar as injustiças praticadas pelas companhias petrolíferas americanas, criou a reforma agrária e concedeu incentivo à educação. Mas o que nos interessa aqui é a abertura das portas do México para os artistas estrangeiros que quisessem colaborar com uma cultura nacional e revolucionária. O México passou a exercer um compreensível fascínio sobre mulheres e homens das artes europeias que viam chegar a guerra e começavam a sofrer nas garras do nazismo. 

Mexicanas ou naturalizadas,  todas elas revolucionárias e feministas, pintoras, escritoras, fotógrafas e escultoras desenvolvem então, num clima de total liberdade, uma produção artística de alto nível e ganham o respeito e admiração de artistas como Picasso, Marx Ernst, Miró, Breton, Buñuel, que sobre elas escreveram de forma entusiasta. No entanto, muitas foram esquecidas e não as encontraremos nas enciclopédias de arte do século XX.

Uma delas é Leonora Carrington, de quem sou fã. Leonora nasce na Inglaterra em 1917. Filha de uma família rica, aristocrática, única mulher entre vários irmãos, é criada para bem representar a família, ou seja, saber se vestir, receber, ser submissa e estar pronta para um bom casamento, mas mostra cedo sua rebeldia. Debuta no Palácio Real diante da princesa Isabel, hoje a rainha Elizabeth II. Quatro anos mais tarde, a experiência resulta num quadro onde a família real devora crianças num banquete. Aos 19 anos consegue a permissão do pai para estudar em Paris. Lá conhece o grupo surrealista e tem contato com Picasso, Max Ernst, Breton, Dali─ de quem não gosta.

Nesses primeiros encontros marca sua postura feminista. Picasso se dirige a ela dizendo “menina vai trazer cigarros para mim”, ao que ela responde: “manda tua mãe”.

 Apaixona-se por Max Ernst. Ele, pintor surrealista mimado pelas altas rodas,  um quarentão, cai de amores pela adolescente Leonora, pintora brilhante.  Refugiam-se numa granja, onde permanecem produzindo por três anos, sem que um influencie a obra do outro. Mas tudo acaba quando Ernst, alemão anti-nazista, é preso e enviado a um campo de concentração e as obras dos dois são queimadas por ordem de Hitler. Leonora, desesperada, tenta conseguir um salvo-conduto para Ernst e libertá-lo. Na busca, é presa e torturada, seus nervos se dilaceram. É internada num manicômio na Espanha com o beneplácito da família. Lá é vítima de um médico fascista que experimenta nela “curas” torturantes.  

“É fácil ter nas mãos as chaves da porta da loucura e abri-la. Difícil é voltar. Eu voltei” , disse quando saiu do manicômio com uma mucama encarregada pelo pai de vigiar seus passos. Considerada “um perigo para a nação” pelo governo britânico e sabendo que o pai preparava-se para interná-la num hospício na África do Sul, fogiu para Lisboa onde encontrou um amigo de Picasso, o escritor mexicano Renato Leduc, adido da embaixada. Para ajudar Leonora a sair da Europa, ele se casa com ela e viajam para Nova York com destino ao México. Em Nova York encontra-se com Max Ernst. Não mais o amor os reúne, mas uma intensa amizade.

A Gigante, c.1947

No México, Leonora conhece Frida Kahlo e os muralistas, mas não se une a eles, prefere a companhia dos exilados. Divorcia-se e passa a morar com a grande surrealista Remedios Varo, uma amizade que perdura até a morte de Remedios, em 1963. É reconhecida por sua obra, mas se mantém discreta e afastada. É gentil com as mulheres que a procuram e considerada antipática pelos homens.

I am as mysterious to myself as I am mysterious to others” [eu sou tanto um mistério para mim mesma quanto para os outros], diz em entrevista quando apresenta “A Gigante ou a Guardiã dos ovos”, uma obra realizada em têmpera a ovo, onde uma mulher se eleva sobre o céu,  mar,  terra e todas as criaturas da criação. Parece-nos que a capa branca que só deixa aparecer duas mãos minúsculas segurando delicadamente um ovo, serve de refúgio aos pássaros, enquanto o vestido de um vermelho místico, está decorado com signos enigmáticos. “O rosto é simples como a lua”, diz a pintora.

Sua obra está carregada de misteriosas imagens das narrativas celtas, do imaginário do México e da Índia.

No México, casa-se com Emericz Chiki Weisz ─ o Chiki ─ jornalista e escritor judeu, com quem teve dois filhos. Filhos e netos, hoje, declaram amor e admiração por Leonora, a mulher surpreendente, leal e amorosa com quem tiveram o privilégio de conviver.

Amor che muove il sole et l´altre stelle, 1946

Um quadro que me comove é “Amor che muove il Sole et l´altre Stelle”  [O Amor que impulsiona o sol e as outras estrelas], onde se vê a carruagem do amor  acompanhada por mulheres de todas as idades, contempladas por um cervo. O uso da técnica de velaturas, a descentralização da composição, a gama dos quatro vermelhos e a entrada dos tons frios, o amarelo tímido da criança que encabeça o desfile, tudo, absolutamente tudo é perfeito.

“Jamais me considerei uma mulher-criança, como André Breton queria ver as mulheres. Nunca quis que me entendessem assim, nem tão pouco ser como os outros. Eu caí no surrealismo porque sim. Nunca perguntei se podia entrar”.

Disse em entrevista
Da série “Onirismo em Bronze”, 2002

Além de pintora e gravadora foi também escritora e escultora. Recomendo seus contos, em especial aquele que ensina francês a uma hiena e com ela tem longas conversas tomando o chá da tarde.

– “De que te queixas?”, diz a hiena.

“Tu comes quando desejas e eu uma só vez ao dia, quando como”.

Passava já dos 80 anos quando recebeu um convite oficial para participar de uma exposição de esculturas. Começou a esculpir. Queria obras monumentais. Para passá-las em bronze era necessário ampliar a escala. Aprendeu. Aos 85 anos subia nos andaimes de seis metros de altura para retocar a cera antes que o bronze entrasse para derretê-la.

Em 2017, para comemorar os cem anos de seu nascimento suas esculturas estiveram em exposição na avenida arborizada frente ao Museu de Antropologia do México. São  peças de três metros de altura onde nos contemplam deusas, alquimistas, e  seres que deambulam  entre o humano e o animal,.

Leonora morreu em 2011, aos 94 anos, aconchegada pela família que tenta mitigar suas dores.

“Que belos pássaros pretos desenhados sobre esse muro branco” , disse, olhando para o muro do hospital. Foram suas últimas palavras.

A rainha Elizabeth II a condecorou com a Ordem do Império Britânico em 2005. Podemos imaginar o sorriso irônico de Leonora Carrington quando recebeu a notícia, o mesmo de quando, pouco antes de sua morte, soube que seus quadros, entre eles “A Gigante”, atingiam mais de um milhão de Euros no mercado.

Da série “Onirismo em Bronze – Crocodrilo”, 2001

Créditos

Escrevo acompanhada do catálogo da exposição de 2017, “Las criaturas surrealistas de Leonora invadem Chapultepec”; da  autobiografia “Leonora

Carrington’s The Hearing Trumpet”;  De “Leonora”, de Elena Poniatowska, sua amiga por mais de 50 anos, editado em 2011

Das entrevistas de filhos e netos de Leonora, gravadas no Youtubee de tudo o que aprendi com meus pais.

Em tempo: filme “Carrington dias de paixão” 1995, interpretado por Emma Thompson.

“Um personagem fantástico, maravilhoso”, um poema que caminha, que sorri, que de repente abre uma sombrinha que se transforma em um pássaro que se transforma depois em peixe e então desaparece”

Assim descreve Leonora Carrington,
o premio Nobel de Literatura Octavio Paz

Escrito por

Beatriz Rota-Rossi

Beatriz Rota-Rossi é artista plástica, professora de História da Arte, Estética da Comunicação  e Cultura Contemporânea. Autora do livro "Da Gravura ao Grafite- Biografia de Alex Vallauri" editora Olhares , entre outros.