Nos 100 anos de Clarice Lispector, buscar inspirações em suas obras pode ser um excelente exercício de introspecção ao encontro de nós mesmas

Dedicado a todas as Clarices…

Por Jane Freitas

Preciso ser o tempo todo compreensiva, dócil, calada, de cabeça baixa, dizendo sim para tudo? Quem eu sou quando ninguém me vê, quando não estou presente “alegremente” nas redes sociais ou perante a sociedade? Considero-me de fato livre para arriscar ser quem realmente sou? A reflexão é a respeito de sermos mais autênticas. De buscarmos o universo ainda desconhecido dentro de nós mesmas, sem amarras, sem preconceitos e sem medo de ser feliz.

As palavras de Clarice Lispector, na obra Perto do Coração Selvagem, de 1977, “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome”, é um convite para que façamos esse necessário mergulho em nosso interior.

Na correria do dia-a-dia, do avanço tecnológico, onde se tocam mais telas do que peles, onde cliques, enteres e mensagens de texto substituiram a troca de olhares e o verdadeiro contato humano, o autoconhecimento passou a ser visto como segundo plano, algo sem necessidade no momento, ou, “coisas de livro de autoajuda”. No entanto, o externo tomou conta. O que é prático e rápido se tornou imprescindível, e ai de quem discorde. Resultado: vidas vazias, pessoas depressivas, ausentes, cada vez mais solitárias.

Não. Não podemos aceitar isso como normatização da realidade, como avanço do desenvolvimento pessoal. Aliás, desenvolvimento é expansão, amplitude, ação e assertividade, não reclusão hermética. Ousar sair da zona de conforto, das limitações impostas por segundos ou terceiros, pensar literalmente fora da caixa e se lançar à liberdade da autenticidade é um ato de coragem e valentia.

Somos sim, seres valentes e corajosos, mas inúmeras vezes, nos esquecemos disso. Vivemos em função do que outras pessoas acham que é melhor para nós, mais “viável”, mais “condizente com o que a sociedade dita como regra”. Que regra? O que é condizente? Direitos e deveres todos nós temos, mas deixar de ser quem somos para vivenciar modismos e hipocrisia, isso não! Não me lembro de termos assinado algum contrato de nascimento onde estava estipulado que deveríamos abrir mão da nossa verdadeira essência, personalidade, liberdade e autenticidade para nos tornarmos outra pessoa.

Somos humanos. Cada um tem sua visão, percepção, sensações, desejos e vontades únicos. Ainda que possa se assemelhar ao outro, nada é igual em sua totalidade. Existe ali uma singularidade, uma unicidade que faz cada pessoa ser quem é. Como mulheres, temos todo o direito de expressar livremente a nossa verdadeira essência, nossos sonhos, desejos, sem que alguém nos impeça, subestime, maltrate, humilhe, anule.

Quantas mulheres, mães, esposas, amigas, irmãs são impedidas covardemente de serem quem são? Quantas foram/são podadas em seus sonhos, roubadas e violadas em sua dignidade, subestimadas em suas capacidades e, em incontáveis casos, tiradas do sopro da vida? É preciso mais do que nunca mudar essa situação. Voltar os olhares para dentro e reconhecer quem nós somos, o que queremos, e fazer valer nossas opiniões, decisões e escolhas.

“O destino de uma mulher é ser mulher”

Reconstruir-se com amor, autoconfiança e autorrespeito é um prazer sem descrição. É sentir-se segura, livre das dúvidas de quem se é.

Podemos dominar e blindar nossas mentes, tomar posse de nossos corpos, caminharmos pela estrada que quisermos. Se erramos a trilha, tanto faz. Recomeçamos! O importante é olharmos para o horizonte e suas infinitas possibilidades.

“O destino de uma mulher é ser mulher”. Esta honrosa abordagem de Clarice Lispector, na obra A hora da Estrela, de 1977, nos leva à seguinte reflexão: Quem somos?

Somos o brilho, a luz, a verdade, a batalha, a vida, a coragem e a ousadia. Somos a beleza retratada nas artes e na cultura. Somos mulheres únicas, completas e intensas. Portanto, façamos valer quem somos, mas, quem realmente somos no íntimo do ser. Que toda maquiagem que usemos seja para embelezar ainda mais o físico e não para editar ou camuflar a alma. Longe disso!

A vida é movimento constante. E precisamos aprender a navegar nesse fluxo divino sem jamais permitir que nos coloquem mordaças ou amarras. Pare de “aceitar” gritos e dores. Levante você, a sua voz, para que o mundo possa te ouvir e descobrir a mulher poderosa que é.

Arregasse as mangas para a mudança, a mudança de se autodescobrir e se libertar. Aprenda a pensar mais em você. Isso não é ser egoísta – pelo contrário – é autovalorização. Mostrar-se ao mundo com autenticidade, honestidade e dignidade.

Não desista! Você é mais forte e determinada do que imagina. Apenas dê o primeiro passo e veja do que é capaz!

Somos mulheres, somos Clarices, somos palavras ainda não inventadas, mas que estão entaladas em nossa garganta. Somos obras completas e ao mesmo tempo inacabadas […]. Por que? Porque embora alguns queiram ou tentem nos silenciar, isso será praticamente impossível. O que mais tem no livro da nossa existência é intensidade e páginas a serem escritas, vozes a serem ouvidas. O abecedário aqui é infinito e sem espaço algum para ponto final.

E como uma singela homenagem aos cem anos da nossa maravilhosa escritora, pensadora e inspiradora, Clarice Lispector, “encerramos” a nossa conversa com mais uma reflexão. Esta, já da obra Uma Aprendizagem ou O Livro dos prazeres, de 1969:

“Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento”.

Escrito por

Jane Freitas

Jornalista, colaboradora do Observatório Chega