A modelo que encantou pintores londrinos e ajudou a descontruir os estereótipos em torno da mulher ruiva, teve vida breve marcada por muita dor e algumas conquistas

Elizabeth Siddall, ou Lizzie, como ficou conhecida, trabalhava numa chapelaria em Londres quando foi descoberta pelo pintor Walter Howell Deverell. Encantado com a sua beleza, ele a convidou para posar para o quadro Noite de Reis, como a personagem Viola.  Lizzie era uma mulher esguia – digamos que magra demais para o padrão vigente -, pele branquíssima e longos cabelos ruivos.

Cabelos ruivos! Um horror! Isso porque na época cabelos ruivos identificavam camponesas, operárias ou prostitutas. Nenhuma mulher “de bem” se apresentaria com cabelos dessa cor. Para os analistas da moda mostrar-se em público com cabelos ruivos era um suicídio social. O trabalho de Lizzie como modelo e o sucesso dos quadros em que ela aparece contribuíram para derrubar esse preconceito. Sua beleza etérea logo foi notada pelo grupo pré-rafaelita, ao qual pertencia Deverell, e se multiplicaram os convites de trabalho. Lizzie e sua família viram a possibilidade de arredondar o salário de chapeleira e aceitaram as oportunidades que apareciam.

Estamos nos começos de 1850, os pré-rafelitas formam, na Inglaterra, uma irmandade avessa à tradição acadêmica e marcada pelo espírito revivalista do romantismo. Aspiram a uma arte pura como a que podia ser contemplada nas obras dos pintores anteriores ao Renascimento, anteriores a Rafael.

 A pesquisadora Francine Prose diz em A Vida das Musas:  “assim como a sua arte, a existência diária dos pré-rafaelitas era afetada, autoconsciente, teatral e cheia de estilo”.

Dante Gabriel Rossetti é apontado, apesar de sua juventude, como um dos mais talentosos pintores do grupo. Ele é descrito como “articulado, apaixonado, e carismático, mas também ardente, poético e irresponsável”. Do encontro de Dante e Lizzie nasce um amor fulminante, porém fatal para a modelo. Ela tem 17 anos, ele, 23. 

Assim como Pignaleão, o escultor grego que se apaixonou pela estátua que ele próprio esculpia, na tentativa de criar a mulher ideal, Dante decide tutelar Lizzie para transformá-la em “gente de bem”. Começa por tirar um “L” do sobrenome Sidall para parecer mais elegante, e então se dedica a polir a educação da moça e a dar-lhe aulas de desenho. A paixão dá lugar a um longo namoro que não se consolida em casamento, como era imprescindível na época. Aqui faz-se necessário perguntar se Dante queria realmente converter a moça em uma “mulher de bem”. Sem dúvida, mas não até esse ponto. Ele se envergonha da amante e nunca a apresenta à família. Quando aventa a possibilidade, seu pai desaprova e fica por isso mesmo.

Entre as duas famílias nem havia uma diferença de status muito evidente, afinal o pai de Dante era um professor e tradutor de poucos ganhos, enquanto o pai de Lizzie era um cuteleiro bem estabelecido.

O senhor Rossetti tem uma forte obsessão por Dante Alighieri, de quem é tradutor. Obsessão herdada pelo filho, que como seu homônimo, procurava sua Beatriz. Lizzie passa a representar para Dante, o sonho feito realidade. Esguia e ruiva, sua imagem em nada lembrava à do angelical espírito-guia da Divina Comédia -até Portinari, o modernista brasileiro, retratou Beatriz como era imaginada na época de Alighieri, mignon, de suaves curvas e cabelos loiros.

Pouco tempo depois do apaixonado encontro, Lizzie está totalmente dominada pelo amante que consolida sua autoridade sobre a vida da jovem proibindo-a de posar para outros artistas. Lizzie seria de sua total e absoluta propriedade. Nesse sentido, Dante abre uma única exceção, permitindo que seu amigo, John Everett Millais, use Lizzie para representar a Ofélia, de Shakespeare,  no famoso  quadro Ophelia (1851-1852).

Hoje o quadro nos parece um presságio do triste fim da modelo.

Millais simboliza, nas flores, o caráter erótico da paixão da desventurada jovem, tal qual Shakespeare descrevia em Hamlet ─ urtigas, a dor do amor ferido, margaridas a virgindade, orquídeas, chamadas na época de “dedo-de-defunto”, o desejo e assim por diante.

Millais procura expressar o máximo de realismo em seu quadro e para isso submerge Lizzie numa banheira com água. Como é inverno, a água é aquecida por lamparinas de querosene colocadas no chão. O tempo passa, as lamparinas vão se apagando  e a água esfria, mas o pintor concentrado no trabalho não percebe que Lizzie está tremendo de frio. O quadro consagra Millais como um dos expoentes mais promissores do grupo, enquanto Lizzie tenta curar-se de uma grave pneumonia que  deixaria sua saúde irremediavelmente comprometida aos 22 anos.

Ofélia (Ophelia), John Everett Millais 1851-52. No detalhe, storyboard produzido pela BBC para o seriado Desperate Romantics, produzida pela BBC e exibida na Inglaterra em 2009.

 A frágil saúde de Lizzie é o último subterfúgio de Dante Rossetti para adiar o casamento. A paixão se mantém viva. Rossetti é incansável em retratá-la e em dedicar-lhe longos poemas. Orientada pelo seu amante, Lizzie se dedica à pintura, um desejo que a acompanha desde a infância.

 Os críticos zombam de seus trabalhos, mas Ruskin, o renomado mecenas, vaticina um futuro brilhante para a pintora e oferece um salário anual de 150 libras para que Lizzie se dedique exclusivamente à pintura.

Em 1857, Lizzie Siddal expõe, como única mulher, na mostra Pré-Rafaelita em Londres. Um de seus trabalhos, Clerk Saunders (1857), é adquirido por um colecionador americano influente, Charles Eliot Norton.

Lovers listening to music- Lizzie Siddal – 1854
Clerk Saunders – Lizzie Siddal – 1857
The Ladie´s Lament – Lizzie Siddal – 1857

Mas a saúde de Lizzie se deteriora e sua beleza murcha.  Os médicos vitorianos dão diagnósticos vagos e receitam láudano (ópio diluído em álcool), o remédio do século para inválidos e hipocondríacos, especialmente recomendado para as mulheres “tão propensas à melancolia”. O láudano lhe produz vômitos e extrema fraqueza. Para diminuir esses sintomas, mais láudano. Resultado, a dependência. Com a saúde abalada e a beleza perdida, ela deixa de ser a musa do pintor, que passa a traí-la com outras modelos.

Afastada da capital para cuidar de sua saúde,  Lizzie vê diminuir a correspondência de Dante. Já não é ela o alvo de seus poemas e das juras de amor eterno. Para constatar o que pressente, toma conhecimento das traições de seu amado através das fofocas nada piedosas que lhe chegam nas cartas de seus conhecidos.  

Em 1860, espera-se a morte da modelo devido a seu grave estado. Rossetti num ato de compaixão, opta pelo casamento. Na lua de mel, em Paris, Lizzie recupera a alegria e a saúde. Pensam até em não retornar a Londres, mas isso não é mais do que um sonho produzido por instantes de euforia. Depois de um curto período de paz para Lizzie, Dante volta às amantes, às escapulidas e ela ao láudano. Uma última esperança se vislumbra quando Lizzie fica grávida, É quando Rossetti a retrata  no quadro Regina Cordium,  a rainha dos corações.

Regina Cordium – Dante Gabriel Rossetti -1860

Mas a felicidade dura pouco, a criança nasce morta.

Podemos imaginar os meses que se seguem até que em 10 de fevereiro de 1862 depois de um jantar com o poeta Algernon Charles Swinburne o casal retorna para sua residência e Lizzie fica sozinha no seu quarto. Rossetti sai para dar aula no Working Men’s College, um centro para a educação de adultos. Quando volta encontra Lizzie inconsciente. O frasco de láudano vazio. As 7 da manhã o médico declara a morte da modelo. Dante demora três dias para permitir o sepultamento. Ele não se convence da morte de Lizzie, que jaz no seu leito, tão bela como quando a conheceu. Convoca quatro médicos para atestarem o que ele pensa ser um “transe produzido pelo láudano”. Inútil. Ela está morta. Outra constatação dos médicos o deixa ainda mais abalado: Lizzie estava grávida.

É instaurado um inquérito e vasculhado o quarto para achar um bilhete póstumo. Não é encontrado. Rossetti o queimou seguindo o conselho de seus amigos, para que o corpo não fosse impedido do descanso em campo santo -normas da igreja na época proibiam o enterro de suicidas em cemitérios cristãos. Finalmente ele aceita sepultá-la, enterrando junto aos cabelos da moça todos os poemas que ela lhe dedicara.

Lizzie morre em 1862, aos 32 anos, mas sua obra permanece através de seus poemas, aclamados assim que publicados.

Amor e Ódio (Elizebteh Sidall)
Não abras teus lábios, insensato,
Nem me voltes a tua face;
As rajadas do céu te derrubarão
Antes que eu te dê a graça.
Tira a tua sombra do meu caminho,
Nem te voltes para mim a rezar;
Os ventos bravios podem cantar teu lamento
Antes que eu te convide a ficar.
Afasta os teus falsos olhos negros,
Nem olhes para a minha face;
Com muito amor te aborreci: agora, muito ódio
Senta tristemente em seu lugar.
Todas as mudanças passam-me como um sonho,
Eu não canto nem rezo;
E tu és como a árvore venenosa
Que roubou toda minha vida

Não é necessário dizer que esse poema foi dedicado a Dante

Esmagado pelo remorso, Rossetti se entrega ao álcool e ao hidrato de cloral, droga conhecida como “gotas de nocaute”. Solicita a ajuda de médiuns para entrar em contato com Lizzie.

Passam-se sete anos e ele não abandona a pintura. Outras musas são alvos de seu interesse como Jane Morris, esposa de William Morris, seu amigo da Irmandade Pré- Rafaelita.

O Sonho de Dante na hora da Morte de Beatriz. Dante Gabriel Rossetti – 1871

Em  “O Sonho de Dante na Hora da Morte de Beatriz” de 1871, Rossetto retrata Lizzie morta, enquanto um anjo voluptuoso a beija.
Uma editora se interessa em publicar os poemas de. Dante decide exumar o corpo de Lizzie para recuperar aqueles que enterrou junto a ela.

Lucinda Hawksley, autora da biografia “Lizzie Siddal, The Tragedy of a Pre-Raphaelite Supermodel” assim descreve o episódio:

“A morbidez continua quando, sete anos depois da morte de Lizzie, Dante Gabriel manda exumá-la para recuperar os manuscritos dos poemas que ele enterrou junto aos cabelos dela. Diz que ela (e sua cabeleira) estava intacta, mas os manuscritos não tiveram a mesma sorte, estavam molhados e destruídos. Acabaram sobrevivendo apenas três páginas”

Rossetti muda da zona ribeirinha de Londres para a zona mais badalada de Chelsea. Muda também de temática em sua obra pictórica. Abandona os temas literários medievais pintando retratos de belezas aristocráticas com um estilo mais sensual e estilizado. Torna-se o pintor preferido dos colecionadores. É um homem abastado. Mas nos últimos anos de vida a publicação de seu livro de poemas é mal recebida pela crítica que o acusa de ser um poeta de temas indecentes.

Amargurado pelas violentas críticas, dependente do álcool e do cloral, afundado em remorsos passa os últimos dias de sua  vida. Morre no Domingo de Páscoa de 1882.

Uma pergunta insiste em ser aventada. Teria sido Lizzie, em circunstância menos danosas, uma pintora reconhecida? No âmbito da futurologia é difícil argumentar, mas não podemos deixar de lado o interesse de Ruski pela sua obra. Afinal ele foi o marchand mais respeitado do momento e muitos pintores a ele devem suas carreiras. Lembremos que vaticinou o futuro brilhante da jovem, e mais ainda, nela apostou concretamente.

Para escrever sobre Elizabeth Eleanor Siddall, Lizzie, contei com a companhia de Lucinda Hawksleye com seu livro A trágica história de Lizzie Siddal, a grande supermodelo da arte. Publicado pela BBC Culture.

Francine Prose, em A Vida das Musas. Publicado porNova Fronteira. Como meu inglês é péssimo, ou simplesmente não é, e o livro de poemas de Lizzie não foi traduzido ao português, usufruí dos poemas de Lizzie em italiano: Poemi, La musa inspiratrice dei preraffaelliti, publicado pela editora Damocle.

Mas para quem sabe inglês, este é o livro: My Ladys Soul: The Poems of Elizabeth Eleanor Siddall,  editado por Serena Trowbridge

Para quem quiser assistir: Inferno de Dante, a vida privada de Rossetti poeta e pintor, filme de 1967, dirigido por Kent  Russel. Interpretando Rossetti, Oliver Reed e, no papel de Lizzie, Judith Paris.

Há também um seriado britânico de 2009 com o badalado ator Aidan Turner. São seis capítulos produzidos pela BBC sobre a Irmandade Pré-Rafaelita, onde está presente a cena de Lizzie na banheira e a reconstituição de sua morte.

Escrito por

Beatriz Rota-Rossi

Beatriz Rota-Rossi é artista plástica, professora de História da Arte, Estética da Comunicação  e Cultura Contemporânea. Autora do livro "Da Gravura ao Grafite- Biografia de Alex Vallauri" editora Olhares , entre outros.