Cinco relacionamentos abusivos pelos quais torcemos muito, mas não deveríamos.

Por Amanda Oliveira e Karina Black.

Pense um pouco: quantas vezes você já viu retratados nas telas, músicas ou livros, exemplos de relacionamentos abusivos? Se você é daqueles que não perde um lançamento, deve se lembrar de alguns, como “Dormindo com o Inimigo” e “Jessica Jones”, por exemplo. Mas, fora essas produções que, claramente expõem essa violência, reflita novamente, quantas vezes já acompanhou relacionamentos abusivos disfarçados de romance? A lista, com certeza é bem mais extensa.

Veja a seguir alguns exemplos de produções que romantizam o relacionamento abusivo e passam a ideia enganosa de que tudo é normal e aceitável quando se trata de amor.

Crepúsculo

Vamos começar falando dos romances sobrenaturais. A saga Crepúsculo, por exemplo, revolucionou a velha imagem que do imaginário coletivo sobre vampiros. Ao longo dos quatro livros e cinco filmes que compõem a saga, vimos Edward e Bella vivenciarem diversas situações dramáticas e o fato do relacionamento de ambos ser proibido fazia o público desejar com maior intensidade que ele ocorresse.

Mas a jornada para o definitivo “felizes para sempre”, do jovem casal foi cercada de de controvérsias. Alguns diálogos do casal evidenciam isso. O termo masoquista é utilizado para descrever o amor dos dois pelos próprios personagens.

E então o leão se apaixonou pelo cordeiro… – murmurou ele.
Virei a cara, escondendo os olhos enquanto me arrepiava com a palavra.

  • Que cordeiro imbecil – suspirei.
  • Que leão masoquista e doentio. (trecho, Crepúsculo)

Ao se apaixonar pelo vampiro, Bella desenvolve dependência emocional do amado. A primeira evidência disso se revela quando ela se afasta dos pais e dos amigos para viver em função de fazer Edward feliz. No segundo livro da saga, o romance passa por um rompimento e vemos Bella arrasada pela dor e na tentativa de ter ilusões com o amado, ela começa a se desafiar a fazer coisas perigosas. Em uma das cenas, se joga de um penhasco em direção ao mar e não morre, porque Jacob, seu melhor amigo e rival de Edward, a salva.

Outra evidência de que o relacionamento é problemática é que Edward descreve o desejo pelo sangue de Bella de forma nada saudável. A disputa entre ele e o lobisomem Jacob pelo coração de Bella pela permanência dela como humana, acrescente mais dramaticidade a trama, levando o público a se dividir entre os apoiadores do vampiro (#TeamEdward) e do lobisomem (#TeamJacob).Além disso, em diversos momentos ele age como um stalker. Invade o quarto de Bella, para vê-la dormindo e a segue enquanto ela sai sozinha.

“Mas você, o seu cheiro é como uma droga para mim. Você é como uma heroína, feita especialmente para mim.” (Edward Cullen, Crepúsculo)

Mas tudo isso é facilmente visto como algo romântico quando Edward diz : “Eu não tenho mais forças para ficar longe de você. Você é minha vida agora”.

The Vampire Diaries

Ainda falando de vampiros, temos a amada série The Vampire Diaries. A sequência de livros fez tanto sucesso que também ganhou espaço na televisão. Nela vemos o triângulo amoroso da humana Elena Gilbert com os irmãos vampiros Stefan e Damon Salvatore.

A relação dos três já inicia de forma conflituosa. A partir do momento em que os irmãos vampiros surgem na cidade da protagonista, sua vida vira de ponta cabeça e tudo o que ela faz é em função ou influencia o relacionamento que tem com eles.

Entre idas e vindas e muito drama, o romance que se destaca é o de Elena e Damon, que para resumir é um personagem egoísta, violento, explosivo e temperamental. Além de assassino.

Ora porque estava triste, ora porque seu romance com Elena era impossível, ou porque simplesmente estava irritado. Qualquer coisa era justificativa para um banho de sangue. Damon matou diversos amigos e familiares de Elena, incluindo o irmão da garota!

Além disso, em diversos momentos, Damon usa de seus poderes sobrenaturais para hipnotizar Elena a fazer certas coisas sem que ela tenha consciência ou se lembre que fez. Tudo perdoado, claro e, no final, a “merecida” redenção.

After

Mas deixando um pouco o sobrenatural de lado, vamos falar sobre os romances mais “reais”. A história de After, escrita por Anna Todd, começou como uma fanfic sobre o vocalista Harry Styles, da boyband One Direction e conquistou legiões de leitores. A popularidade transformou a história em uma saga de cinco livros e em abril deste ano chegou aos cinemas. Tessa é uma caloura certinha que chega à universidade e se apaixona por Hardin, um veterano bad boy. No prólogo do primeiro livro, já temos um vislumbre do vem pela frente.

Desde nosso primeiro encontro, Hardin mudou minha vida mais do que qualquer cursinho ou grupo de leitura. De repente eu estava vivendo os filmes que tinha visto na adolescência, e aquelas tramas ridículas eram realidade. Eu teria feito alguma coisa diferente se soubesse o que aconteceria mais para a frente? Não sei. Adoraria ter uma resposta para essa pergunta, mas não tenho. Às vezes me sinto grata por tudo, tão dominada de paixão que meu juízo vai para o espaço, e a única coisa em que consigo pensar é nele. Em outras ocasiões, penso no sofrimento que Hardin me causou, na saudade que sinto de quem eu era, no caos daqueles momentos em que vi meu mundo ser virado de cabeça para baixo, e a resposta deixa de ser clara. A única certeza que tenho é de que minha vida e meu coração nunca mais serão os mesmos depois de Hardin.

Ao longo de toda história, vemos Hardin tratando Tessa sempre mal, constantemente zombando de suas atitudes, das roupas que veste e o utilizando o termo “patética” para isso. Em diversas cenas, antes do relacionamento amoroso, Hardin a coloca contra parede e a puxa pelo braço, mas a visão que Tessa tem desses momentos é de que ele está agindo de forma protetora e até mesmo sexy. O alcoolismo de Hardin combinado com seu temperamento explosivo rende muitas cenas dele agredindo outras pessoas e usando Tessa como desculpa.

O ápice de tudo é que ao longo da trajetória dos dois, Tessa descobre que o envolvimento deles só aconteceu por causa de uma aposta. Ela havia dito em um jogo da verdade que era virgem, Hardin aposta com os colegas que iria fazê-la se apaixonar por ele e tirar a virgindade da garota. Quando ele consegue o que quer, leva para seus amigos as camisinhas e o lençol manchado de sangue, como prova da conquista. A cena em que Tessa descobre a verdade acontece em um bar, diante de todos os amigos de Hardin.

Todo mundo no bar está me olhando, e eu me sinto pequena. Magoada e pequena.
“O que você fez com o dinheiro, Hardin?”
“Eu…”, ele começa, e se interrompe.
“Conta”, eu exijo.
“Seu carro… a pintura… o depósito do aluguel. Pensei que se… Quase contei um monte de vezes, quando senti que não era mais só uma aposta. Eu te amo… e desde o começo. Juro”, ele afirma.
“Você guardou a camisinha para mostrar para eles, Hardin! Você mostrou o lençol ensanguentado, caralho!” Levo as mãos aos cabelos e começo a puxá-los. “Ai, meu Deus! Como sou idiota. Enquanto eu revivia os detalhes da melhor noite da minha vida, você estava mostrando o lençol para seus amigos.”
“Eu sei… Isso não tem desculpa… Mas você precisa me perdoar. Vamos superar isso”, ele diz.

Mesmo diante destas e de outras descobertas, Tessa perdoa Hardin, “supera” a situação e eles se casam. Diferentemente de outros romances abusivos, Tessa em vários diálogos internos diz ter consciência sobre a toxicidade da relação, mas permanece nela, se apegando às pequenas demonstrações de afeto oferecidas por Hardin.

Gossip Girl

Apesar de não ter a inocência de Tessa, a personagem Blair Waldorf da série de TV e de livros Gossip Girl, também vivencia um amor tóxico que tem como motor a dependência química e o temperamento agressivo.

O romance da protagonista com Chuck Bass, tem idas e vindas permeadas por situações extremamente abusivas. Em uma das situações Chuck opta trocar Blair, como se ela fosse um objeto, para reaver o Hotel que havia perdido para seu tio Jack Bass.

Em outro episódio, no noivado de Blair com o Príncipe Louis, a personagem encontra Chuck e durante a conversa, quando deixa claro que não vai abrir mão do casamento, Chuck avança sobre ela e, como “alternativa” para não machucá-la, ele soca a janela. Os cacos caem sobre Blair e lhe cortam seu rosto.

Assim como em After, em vários diálogos, ambos têm consciência de que a relação não é saudável, mas a “química irresistível” é usada como justificativa para a permanência deles juntos. Qual é o final desta história? Bom, o altar é um destino bastante utilizado para séries que romantizam o abuso.

50 tons de cinza

A série de livros que se tornou filme arrancou suspiros de muita gente que amou acompanhar o “romance” da também virgem inocente Anastasia Steele com o bilionário e de “gostos peculiares”, Christian Grey.

Na trama, a estudante de literatura precisa entrevistar o magnata para o jornal da faculdade. Do encontro, Grey desenvolve uma louca fascinação pela moça e passa a persegui-la até que ela inicie um relacionamento com ele.

Não bastasse isso, ele também a manipula psicologicamente, invade sua casa, agride, controla toda sua vida e tudo é vendido como o mais belo romance, só que neste caso, erótico, já que Christian é adepto do sadomasoquismo e “desafia” Anastasia a participar do jogo e realizar suas fantasias sexuais.

A moça aceita, mas antes, precisa assinar um contrato que diz tudo o que ele pode fazer a ela e tudo o que ela deve ou não fazer. Por exemplo, o contrato determina qual ginecologista ela poderá frequentar e que as consultas serão sob a supervisão de Grey.

Claro que, gostos tão peculiares e atitudes tão controladoras têm uma justificativa, na verdade, um trauma do passado. E claro, também, que nossa mocinha irá ajudá-lo a superar os problemas e levá-lo ao caminho da redenção.

Raio X do problema

Mas, porque os personagens agem desta forma? Que motivos levam as pessoas a romantizarem as situações de violência? Para responder essas e outras perguntas, conversamos com a psicóloga Rosangela Manoel da Silva (CRP:78897-06). De acordo com ela, o homem ver a mulher como objeto de cobiça e demonstrar ciúmes obsessivo, como acontece nos romances de Gossip Girl e After, por exemplo, está relacionado à fatores históricos. “Viemos de uma sociedade extremamente machista, onde o homem é sempre colocado como superior e a mulher sempre como inferior e isso vem sendo repassado de geração em geração. Então, quando o homem tem ‘ciúme da mulher’, é considerado amor. É histórico, porque o homem subjugava a mulher e historicamente a mulher é acostumada a ser subjugada e quando isso não ocorre, o homem não está ligando para ela, tem a representação de que isso não é amor. ‘Nossa ele não liga para a roupa que eu uso, ele não liga se eu saio pintada, ele não liga se eu volto meia-noite, acho que ele não me ama.’ O homem continua achando que pode subjugar a mulher e você vai encontrar muitos desses comportamentos naquela família tradicional que é o pai que pode sair de casa e trabalhar e a mulher fica em casa tomando conta dos filhos e ele ainda acha que ele tem poder sobre ela e as mulheres acham isso lindo. A nossa história, da mulher conquistar os direitos é muito recente, então as pessoas ainda acham que o comportamento machista é o comportamento de um homem apaixonado, mas não é! É um comportamento de um homem controlador, que vê a mulher como objeto, por isso, indo lá e conquistar aquela mulher é realmente como um troféu, como um objeto. Eu fui lá, tirei a virgindade dela porque ela é um objeto, ela não é vista como outro ser humano”.

Em um comparativo sobre ficção e realidade, podemos analisar que comportamento agressivo é um ponto que une todos os personagens destas histórias. Segundo a psicóloga, isso acontece porque normalmente homens abusivos acreditam que suas atitudes são justificadas. “O menino cresce achando que pode subjugar a mulher. Ele vê o pai subjugando a mãe, a irmã e acha isso normal, mas é algo inconsciente. Se eu tenho consciência que sou alguém que faz mal para outras pessoas e não procuro mudar, é crime, mas acontece. Vai, 99,999% dos abusadores, vieram de lares onde os pais abusavam da mãe. Sempre é um lar desestruturado. Atendi um caso há pouco tempo que o homem tentou matar a esposa, fui conversar e ele falou: ‘Ela não te falou o que aconteceu para eu ter feito isso? Ela aprontou muito para eu chegar nesse ponto’. Quer dizer, ele via aquilo como se fosse culpa dela. Ele tentou matá-la, ela está no hospital e ele continua achando que era culpa dela”, explica.

Na dúvida sobre abuso: fuja

Nas histórias que usamos de referência, quando as situações abusivas ocorriam, as personagens se mantiveram em silêncio. Dificilmente elas contavam que estavam se relacionando com um vampiro ou que viviam um jogo sádico, o qual chamavam de “amor”. O medo e a vergonha, na vida real, também levam as vítimas se sentirem culpadas e não denunciarem a violência. “Acredito que a mídia poderia ajudar muito mais. Tem muito caso de suicídio e depressão por conta de relacionamento tóxico. No fim de uma palestra que eu dei, as diretoras do local ficaram super revoltadas com o que eu falei. Eu levei um convidado que fez um filme sobre violência e elas não gostaram, pois acreditam que não tinha que expor violência dessa forma. Mas como as mulheres vão saber? Elas disseram o seguinte: ‘Tem outros meios. Tem que valorizar a mulher. Falar que ela é linda, maravilhosa, mas não tem que ficar falando sobre violência’. Então você percebe que as pessoas não gostam que falem. É a cultura também de esconder, ali debaixo do tapete, de fazer de conta que não está vendo”, destaca Rosangela.

Mas, assim como todas as histórias apresentadas aqui ou na vida real, um relacionamento começa a se mostrar abusivo por meio do discurso direto ou indireto emitido pelos personagens. Chuck Bass, Christian Grey e Hardin Scott sempre disseram que não eram boa companhia, assim como Damon, Stefan e Edward, mostraram as presas e disseram que não eram mocinhos. Na vida real, não é diferente. Estar atenta a todos os sinais é importante e em qualquer tipo de indício de abuso, não tenha dúvidas: fuja e denuncie.

Escrito por

Equipe Chega!

Grupo de alunos, ex-alunos e professores da Universidade Santa Cecília – FaAC, metendo a colher para conectar pessoas, ideias e lutas, dispostos a contribuir com o debate público sobre a violência contra a mulher.