Estudante relata uma experiência amarga como modelo-vivo e faz um alerta: “que a minha experiência sirva de exemplo para toda garota que sonha em um dia posar nua” (*)

O ateliê do artista, Gustave Courbet (1855), Museu d’ Orsay, Paris

Desde 2015 entrei pra um grupo de nu artístico num estúdio em Santos. É composto por um grupo de desenhistas e artistas que se reúnem para desenhar uma vez por mês contratando uma modelo de nu. Um dia alguém propôs de ao invés de contratar uma modelo, nós mesmos posássemos, um por vez, num revesamento entre nós. Eu e poucas pessoas apoiamos essa idéia, mas não foi pra frente. Eu queria posar, mas na época não me sentia segura. Passado alguns anos, me afastei do grupo pois entrei para a faculdade, o que tomava muito do meu tempo, mas sempre acompanhava o grupo de alguma forma

Em janeiro de 2021 surgiu uma oportunidade de fazer uma sessão de fotos de nu artístico através de uma amiga. Me empolguei com a idéia, afinal era um sonho antigo que queria realizar, e seguimos com a ideia. Ela me indicou um fotógrafo profissional de sua confiança, eles eram colegas de trabalho no meio do audiovisual. Fiquei um pouco insegura pelo fato de ser um homem, mas ela me garantiu que ele era de confiança e profissional, então topei. Insisti para que ela estivesse presente no ensaio,  e ela foi, o que me tranqüilizou.

Era o meu primeiro ensaio nu, mas não era o do fotógrafo, que já tinha trabalhado com outras modelos sem roupa. E correu tudo bem, nós três bebemos um pouco de vinho para descontrair e logo começamos o ensaio. Primeiro foi de lingerie, e aos poucos fui tirando as peças e o fotógrafo o tempo todo foi profissional, respeitoso, não me assediou, não tentou nada comigo. E minha amiga estava lá o tempo todo, tirando as fotos do making of e me orientando com as poses.

Naquele dia me vi como uma mulher adulta, de 30 anos, pela primeira vez empoderada, forte, segura. Tudo correu muito bem.

Passado alguns dias eu e o fotógrafo fomos conversando online sobre o ensaio, sobre arte, sobre nu, e sobre assuntos gerais. Mas percebi que ele deixava escapar em alguns momentos palavras que demonstravam interesse em mim,  fingi que não entendia. Depois disso, convidei minha amiga e ele para irem lá em casa para conversarmos mais sobre o ensaio, mas de última hora minha amiga não pode ir, por mais que eu tivesse insistido. Então ficamos a sós, eu e o fotógrafo, conversando e assistindo a um filme.

Ele ficou sentado na minha cama, e eu na cadeira. Quando começamos a ver o filme, ele pediu para que eu me sentasse do lado dele na cama, mas dei uma desculpa. Quando o filme acabou, ele veio para perto de mim, falou alguma coisa e pousou a mão sobre minha cabeça, tentando fazer um carinho desajeitado, me senti desconfortável. Na hora de ir embora, ele não queria ir, ficou encostado na cama insistindo um pouco para ficar, mas falei firme que estava com sono e teria que acordar cedo no dia seguinte. Ele foi embora meio chateado, me deu um abraço apertado – achei estranho – e disse “depois vamos marcar nosso próximo encontro”. Oi? Aquilo não foi um encontro, não sei de onde ele tirou isso da cabeça. Era para minha amiga estar junto, mas ela não pode ir de última hora. A partir de então, quis cortar qualquer tipo de relação com ele.

Ele é o fotógrafo, fizemos um trabalho juntos, me expus nua, e menos de um mês depois, já estava dando em cima de mim. Não era pra isso ter acontecido, era para mantermos apenas uma relação profissional, nada mais. Me senti objetificada, mal o conhecia, mal ele me conhecia, ele só tinha visto meu corpo nu e conversado bem pouco comigo para logo ter ficado interessado em mim.

Algumas semanas depois, ele editou as fotos e postou no instagram. Embora no dia do ensaio eu tivesse dado a permissão para isso, pensei que ele editaria e verificaria comigo, selecionando as fotos antes de postá-las.

Foi erro de comunicação dos dois, principalmente dele, por já ter experiência em trabalhar com nu antes.

As primeiras fotos postadas foram as mais sutis, então pedi para ele me marcar no Instagram. Depois que ele postou as outras, mudei de idéia, criei um perfil falso e privado pedindo para ele me marcar neste perfil e deletar o meu nome verdadeiro. E ele fez isso, até onde eu pensava

Mas depois de umas semanas, recebo uma ligação às 4h da manhã de um amigo bem próximo, dizendo que todas as minhas fotos estavam no Google. Era só digitar “meu nome + modelo” que elas apareciam, antes mesmo do meu perfil profissional e pessoal.

Congelei, não sabia o que fazer. As fotos que deixei privadas para apenas algumas pessoas de confiança verem agora estavam disponíveis no Google todo, inclusive as mais íntimas. Me senti invadida, explorada, usada. Ele fez isso sem pensar nas conseqüências, só pensou em incrementar o portfólio (colocando algumas hashtags como #sensualidade, # sensual, #musa, #lingerie e meu nome completo) e no destaque que iria ter – porque o número de likes subiu muito. Meu amigo me acalmou, disse para eu dormir e que na manhã seguinte resolveríamos isso.

No dia seguinte, ele me ajudou a escrever um texto bem elaborado para enviar ao fotógrafo, explicando toda a minha situação profissional e pessoal, pedindo para que apagasse todas as fotos imediatamente – o que ele não viu na hora.

Passado uns minutos, recebo uma mensagem do meu pai com um link sobre minhas fotos. Outro choque: congelei de novo. Minhas fotos estavam agora no Facebook, marcadas com o meu nome completo, mesmo depois de ter pedido pro cara NÃO fazer isso!

E as últimas pessoas da face da terra que eu gostaria que tivessem acesso a essas fotos eram os meus pais. Se eles tinham visto estas fotos, então quem mais poderia ter visto? Meus amigos? Meus chefes? Colegas de faculdade?

Não sabia mais o que fazer, meu mundo caiu. Fui humilhada publicamente, me desesperei, chorei em público e meu amigo tentando me acalmar o tempo todo. Liguei na hora alterada pro fotógrafo, explicando a situação e pedindo que ele apagasse imediatamente todas as fotos.

Ele me ouviu e disse que iria apagar – o que de fato fez – falei que meus pais tinham visto, e ainda quis jogar a culpa neles por “não terem a compreensão de um trabalho de nu artístico”. Além de me falar frases feministas sobre empoderamento – o que ele entende por feminismo? Sou mulher, não preciso que um homem me explique o que é o feminismo ou que me empodere – e pra seguir em frente com a cabeça erguida, assumindo minha atitude de ter posado nua. Mas em momento algum ele reconheceu seu erro, em momento algum ele se desculpou comigo.

É fácil para ele falar, pois fica por trás das câmeras, seguro com sua identidade, sem estar exposto, sem ninguém saber quem ele é. Eu não: fui exposta publicamente, meu corpo exposto, meu ROSTO exposto, meu nome completo exposto. E eu tenho uma vida caminhando rumo à carreira de arquitetura: sou estudante e estagio numa empresa renomada. Imagina se isso cai nos olhos dos meus chefes? Sou modelo nu, e minha vida profissional não se pode misturar com minha vida artística.

Fiquei um tempo sem falar com meus pais ou visitá-los por pura vergonha, não consegui enfrentar a situação. Me afastei de amigos, de todos. Só contei com esse meu amigo próximo e essa minha amiga que indicou o cara, que ambos me acolheram e tomaram as dores por mim. Minha amiga também teve seu nome exposto com o ensaio, foi tirar satisfação com o cara, que não deu importância com a gravidade da situação.

Esse fotógrafo não foi profissional em momento algum: para começar, não trouxe nenhum termo de autorização de uso de imagem para que eu assinasse; deu em cima de mim em menos de um mês depois da sessão; publicou fotos nas redes sociais sem a minha aprovação; expôs meu nome completo; não reconheceu que errou até hoje, não veio se desculpar comigo, a ainda tentou culpar meus pais e a sociedade. E depois disso tudo, em momento algum demonstrou se importar comigo, pois só ficou lamentando pelo trabalho perdido, porque estava dando muito destaque nas redes sociais, coisa que ele não tinha antes.

É um típico esquerdomacho orgulhoso e arrogante, que realmente acredita que é um ótimo profissional, termo que ele mesmo se autodenominou. E ainda tentou me persuadir, me convidando para nos encontrarmos pessoalmente para discutir o assunto, dizendo que ainda tinha as fotos salvas em seu computador e que não gostaria de desperdiçá-las (oi? isso foi uma ameaça? o que ele faria pessoalmente comigo, se na primeira saída ele considerou um encontro?). Ironicamente, me mandou em seguida um áudio de meditação sobre empoderamento feminino. De novo a pergunta: O que será mesmo que ele entende por feminismo?

Pois é meninas, essa foi minha primeira experiência com o nu, que foi péssima. Agi por impulso sem pensar bem antes, fui na confiança de uma amiga sem checar o perfil do cara. Deveria ter conversado com alguém com experiência nisso: uma modelo nu.

Espero que vocês não caiam na mesma cilada que eu e tomem muito cuidado em quem vocês depositam sua confiança, pois é o seu corpo e seu rosto que estarão sendo expostos para um desconhecido.

Eu não vou desistir do nu artístico, pois admiro muito esse trabalho, e nas sessões de desenho sempre enxerguei a pessoa que posa como uma pessoa empoderada, de posição de destaque, uma musa, com todos os olhares à sua volta. Só vou dar um tempo até as coisas se acalmarem e pesquisar melhor um profissional de confiança, de preferência uma mulher, e checar com outras modelos que já posaram. Espero que ninguém mais passe por esse inferno que eu passei, e espero que a minha experiência não sirva apenas de lição para mim, mas para as futuras modelos nus que pretendem fazer ensaio algum dia.

(*) Para proteção da autora e outros envolvidos, os nomes reais não serão revelados

Escrito por

Equipe Chega!

Grupo de alunos, ex-alunos e professores da Universidade Santa Cecília – FaAC, metendo a colher para conectar pessoas, ideias e lutas, dispostos a contribuir com o debate público sobre a violência contra a mulher.