Programa, que terá final na próxima quinta (23), levantou muitas polêmicas e importantes reflexões

Por Juliana Duarte

Você pode abrir o Twitter agora e reparar que pelo menos um dos tópicos populares é referente ao Big Brother Brasil. Seja pelas polêmicas,  brigas ou até mesmo pelas reflexões, a vigésima edição do programa é uma das mais comentadas, senão a principal.

Mais do que desentendimentos envolvendo personalidade dos participantes, o reality show é uma pequena amostra de uma sociedade que busca por direitos iguais, procurando discutir pautas mais sociais e trazer debates com outros pontos de vista. Ao mesmo tempo em que a casa mostra uma crescente abertura para tratar de temas como machismo, misoginia e racismo, simultaneamente, também dá abertura para momentos que, além de absurdos, são criminosos.

Ao longo dos anos, muitos foram os casos envolvendo assédio, abuso e até estupro, oferecidos como entretenimento pelas câmeras do Big Boss. Na edição em andamento, infelizmente, não foi apenas uma vez que esses tópicos apareceram. Entre eles, o caso de mais repercussão envolveu o ginasta artístico Petrix Barbosa e a empresária Bianca Andrade: o participante apalpou os seios da moça, visivelmente bêbada e fora de si.

Conversa entre Bianca e Petrix, no momento do assédio (Reprodução/GLOBO)

A cena não precisou de muito mais para se tornar um dos assuntos mais comentados nas redes sociais na. Grupos feministas pediram a expulsão do assediador, além de cobrar providências da TV Globo e brigar pela prisão de Petrix.

Os gritos e pedidos do público foram ignorados pelo silêncio ensurdecedor da emissora. As imagens do assédio ganharam a internet – com análises de todos os tipos. E com defesas para todos os lados. O mesmo participante, ainda, esfregou sua genitália em outra mulher da casa, também visivelmente bêbada.

Com câmeras instaladas e ativas 24 horas por dia, o Big Brother Brasil é produzido como um programa de entretenimento. Neste ano, pessoas até então anônimas se juntaram a outros já conhecidos, como é o caso de Bianca Andrade e Petrix, para concorrer ao disputado prêmio de R$1,5 milhão. Sem contar, é claro, a popularidade e alcance consequentes da participação. Se o objetivo do reality show era criar um programa “vida real”, a Globo chegou perto disso. Mas da pior forma.

Voltando à 12ª do programa, um caso de estupro ganhou repercussão e é um dos mais lembrados quando o assunto é violência contra a mulher dentro do reality. Após uma festa, o modelo Daniel Echaniz deitou-se sob o edredom com a participante Monique Amin, que se encontrava bêbada. Movimentos característicos de um ato sexual foram percebidos pelos espectadores, enquanto a moça aparentemente dormia. Diferentemente de Petrix, Daniel foi expulso da casa, mesmo após ambos negarem qualquer relação não consentida.

Momento em que foi percebido o possível estupro no BBB12 (Reprodução/TV GLOBO)

Ainda assim, fora do programa, diversos foram os relatos de mulheres dizendo-se vítimas do modelo. E esse acontecimento não é exclusivo dele. Anualmente, a cota de pelo menos um participante com precedentes envolvendo abuso é preenchida dentro do elenco. A polêmica é certa – mas borrada e, inclusive, utilizada para alavancar a audiência. Muitas vezes, o participante já tem denúncias ligadas à sua conduta como agressor e até mesmo estuprador. Em outros momentos, como aconteceu neste ano, as denúncias surgem após a eliminação do BBB20. Foi o que houve com Felipe Prior, um dos personagens mais populares da edição.

Durante sua permanência no reality show, alguns boatos sobre assédio surgiram nas redes sociais. Mas, pela falta de consolidação, se tornaram posts perdidos em meio a tantos outros sobre o participante. A denúncia, com personagens reais e inquérito aberto, só surgiu dias depois da eliminação do Prior, que protagonizou o paredão com maior recorde de votação da história do programa. O caso ganhou repercussão e segue em andamento.

Possível estupro no BBB12 (Reprodução/TV GLOBO)

Diariamente, mulheres são vítimas de violência física e psicológica. O agressor está por todos os lados: em casa, no trabalho, na balada, no ônibus… Ao contrário do BBB, são raras as denúncias onde há câmeras registrando a ação. É a palavra da vítima contra a do agressor.

E, infelizmente, o segundo acaba sendo beneficiado na maioria das vezes, principalmente quando, no caso envolvendo o Prior, o suposto estuprador está em grande foco na mídia.

Quando a vítima chega à delegacia, a falta de provas dificulta o andamento do processo. Em uma sociedade machista, onde a mulher já recebe a dúvida só pelo gênero ao qual pertence, sua declaração pouco tem credibilidade.

Talvez, se houvesse câmeras registrando toda a ação, a palavra da mulher seria melhor recebida?

O BBB provou que não.

A imagem é uma faca de dois gumes: de um lado, a prova; do outro, o julgamento social. Ela estava bêbada. Ela deu mole. Ela pediu. Ela estava com um decote muito grande. O short, pequeno. Homens não conseguem se conter. Ela está no Big Brother Brasil. Quer farra, quer aparecer, com certeza. Pediu.

Mulheres confrontam os homens por jogo manipulador (Reprodução/TV GLOBO)

Entender-se como mulher em meio à uma sociedade machista é um questionamento diário. Os direitos não são iguais – nem no papel e, muito menos, fora dele. Ver um filme de terror vivido por todas nós, todos os dias, se tornar entretenimento em um reality show é, no mínimo, nojento. Nossos corpos são violados todos os dias – e a internet traz a sensação de que somos ainda mais pertencentes ao público.

Intrigante é reparar que a mesma emissora vem propondo diversas reflexões por meio de produtos audiovisuais envolvendo o tema. Séries, novelas e filmes produzidos pelo grupo estão com uma pegada cada vez mais progressista. Inclusive, incluindo pautas feministas.

Então por que fechar os olhos ao que acontece sob sua responsabilidade?

O descaso da emissora vem desde a seleção dos participantes. Não só dá a oportunidade de um pedófilo, agressor ou criminoso se tornar popular e milionário, como ainda coloca em risco a segurança das outras pessoas. Câmeras não inibem a ação – e sabemos disso da pior forma. Então, por que arriscar? Por que não evitar? Ou o perigo chama tanto atenção a ponto de valer a pena?

Petrix em sua eliminação na segunda semana do programa, com 80,27% dos votos

Vender o assédio e a defesa do abusador como entretenimento é se aproveitar de um filme de terror vivido por milhões de mulheres ao redor do mundo diariamente. É expor, com todos os segundos explícitos, que o sexo feminino deixa de ser valorizado a partir do momento que uma gota de álcool entra no organismo. Sabemos que o objetivo não é criar uma discussão sobre o caso. Mas, sim, aproveitar o frenesi em torno da situação para, assim, alavancar a audiência e popularidade do programa. É só reparar como o Big Brother Brasil 20 expandiu seu público após os casos de machismo apresentados no reality show.

E, dessa forma, grita aos quatro ventos que homens podem se aproveitar dos nossos corpos. Eles serão odiados ou amados. Mas, no final, ainda vão atrair olhares curiosos e indignados. Porque é o objetivo: atrair olhares, não importa de que lado. A culpa sempre será da mulher, mesmo. Com ou sem câmeras. E, se tudo der certo, a impunidade ainda vem acompanhada de R$1,5 milhões.

Após o caso, o participante Petrix precisou comparecer à delegacia para dar continuidade ao processo. Já as quatro denúncias direcionadas à Prior continuam em andamento, mesmo ele negando qualquer feito. Não sabemos até onde vai. Mas temos uma certeza: nem na casa mais vigiada do Brasil nós estamos protegidas.

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Chega Admin

Grupo de alunos, ex-alunos e professores da Universidade Santa Cecília – FaAC, metendo a colher para conectar pessoas, ideias e lutas, dispostos a contribuir com o debate público sobre a violência contra a mulher.