Ela não admitia a representação do corpo feminino como objeto do desejo masculino, o que era comum entre os pintores do começo do século XX . Opinião firme, que resultou em longos embates com seus colegas, especialmente com Salvador Dalí. Anarquista, antinazista e militante feminista ferrenha, Varo morreu cedo, mas deixou um importante legado

Por Beatriz Rota-Rossi

“Anjos da anarquia” é a primeira exposição que une os surrealistas do século XX. Foi organizada por Patricia Allmer em 2009, na cidade de Manchester, Inglaterra. No catálogo estão presentes as mulheres que desempenharam um papel importante no movimento, elogiadas pelos pares, mas nunca plenamente reconhecidas como artistas. Nele está Remedios Varo.

Maria de los Remedios Alicia Rodriga Varo y Uranga (1908 – 1953) é mais uma das grandes artistas naturalizadas mexicanas. Foi considerada, em sua época, como a mais alta representação do surrealismo internacional, mas logo depois foi esquecida.

Participou do movimento surrealista europeu em mesas de discussão com Salvador Dalí, André Breton, Picasso e Max Ernst. A tirania do dogma das formas fixas e da concepção estanque da realidade eram temas recorrentes. ” É a imaginação, poder maior da natureza humana, que não só inventa coisas, mas principalmente, inventa caminhos novos”  declarou Bachelard nos anos 60.

O movimento surrealista foi o primeiro a recomendar a participação feminina na arte, porém, a proposta ficou no discurso e não na ação efetiva. Objetos catalisadores da criatividade masculina, como eram chamadas as artistas, não eram convidadas a mostrar suas obras quando das exposições por eles organizadas. Remedios, conterrânea de Salvador Dalí, criticava a obra do pintor, marcando com veemência sua posição de não admitir a representação do feminino só como objeto de desejo do homem. As discussões eram acaloradas já que a abordagem de Dalí se encaixava perfeitamente na crítica de Remedios.  

Nessas condições restou às artistas do grupo, abrirem seus próprios caminhos, por mais difícil e doloroso que fosse.

Remedios Varo -Ruptura – 1955

No quadro “Ruptura”, possivelmente um autorretrato, vemos a pintora abandonar o passado. Como um monge à procura da verdade interior, deixa para trás uma casa, que tanto poderia significar a casa paterna ou a própria Europa.Tudo é estático menos os papeis que voam ao vento, ignorados pela mulher, e as cortinas que desvendam rostos a observar, todos idênticos. Invejam a fugitiva ou a condenam?

Remedios Varo é espanhola, anarquista, antinazista e militante feminista ferrenha. Perseguida pelo governo de Franco, na Espanha, e presa pelos nazistas na França, abandona de vez a Europa onde deixa o marido de quem nunca divorciou. Com ela vai Peret com quem tinha vivido um tórrido romance parisiense na mais absoluta pobreza.

Chega ao México onde se exila e conhece Diego Rivera  e Frida Kahlo, mas assim como Leonora Carrington, não compartilha das ideias do casal. Como o resto de suas colegas, o México do presidente Cárdenas lhe oferece um lar onde pode florescer. E de fato, é lá onde, afastada do círculo europeu, chega a uma produção madura.

O então presidente Cárdenas lhe ofereceu um lar e um clima de liberdade onde sua arte pudesse florescer. E de fato foi no México, distante do círculo europeu, que sua produção atingiu uma têmpera madura.

Remedios foge de toda convenção ou normas que lhe impeçam de trabalhar com total liberdade. É ao lado de Leonora Carrington, sua grande amiga, e do crítico Otavio Paz, que encontra apoio e orientação para seu trabalho.

Com Leonora se diverte preparando receitas eróticas e beberagens para sonhar, como na receita abaixo. Juntas aprofundam estudos alquímicos e ocultistas, além de aprimorar seus trabalhos na arte. A semelhança de interesses as une numa forte amizade, que só terá fim com a morte prematura de Remedios.

“Receita erótica”:

  • um quilo de raiz forte
  • três galinhas brancas
  • uma cabeça de alho
  • quatro quilos de mel
  • um espelho
  • dois fígados de vitela
  • um tijolo
  • dois pregadores de roupa;
  • um corpete com barbatanas
  • dois bigodes postiços
    chapéus ao gosto.
  • Modo de fazer: depenar as galinhas, conservando cuidadosamente as penas. Colocar para ferver em dois litros de água destilada ou da chuva, sem sal e com a cabeça de alho sem casca e espremida. Deixar ferver em fogo lento.

A receita continua por páginas e mais páginas. Nela, se unem os ingredientes que formam o surrealismo:  o absurdo e o real, o pensamento alquímico do povo, o caos e o absurdo, o medieval e o contemporâneo, além de uma clara crítica ao papel adjudicado à mulher como a rainha do fogão.

Bordando el manto terrestre 1961

O México a influencia, porém não abandona a herança européia nem a obsessão pela procura de sua verdade interior. Admira Bosch, El Greco, Goya e a tradição pictórica renascentista, da qual assimila a unidade da estrutura narrativa e as nuances tonais. Mantém viva na memória, as narrativas espanholas da infância com forte teor religioso medieval.

Obstina-se por seguir uma severa disciplina, tanto na procura dos temas como na elaboração pictórica dos mesmos. Fiel à sua militância anarquista, opta pela solidão para criar e nunca se lança à procura do reconhecimento público. Em carta destinada ao primeiro marido, Gerardo Lizarraga, ela escreve: “Me custa muito entender a importância que parece ter para ti o reconhecimento do teu talento. Eu pensava que para um criador o importante seria criar, e o futuro de sua obra seria uma questão secundária, e fama, admiração, curiosidade das pessoas etc. muito mais consequências inevitáveis que coisas desejadas”.

Mas engana-se quem pensa que sua arte é depressiva ou doentia. O humor está presente em muitas telas: “Locomoção Capilar” de 1959, “Lady Godiva”, também de 1959;  “Vampiros Vegetarianos” de 1962 e “Banqueiros em Ação” do mesmo ano.

Remedios  Varo-Vampiros Vegetarianos e Remedios  Varo – Lady Godiva, ambos de 1959

Os vampiros chupam frutas vermelhas com longos canudinhos, acompanhados de seus pets de estimação; galos de quatro patas.

A Lady Godiva de Remedios se mostra muito zangada com as imposições de seu marido. Não monta o cavalo branco com belos arreios, propriedade de seu cônjuge como nos conta a lenda, mas são seus próprios cabelos que lhe servem de sela para um transporte singular.

Suas figuras costumam flutuar ou deslizar sobre rodinhas ou manipular engenhocas incompreensíveis como em “Papilla Estelar” (Mingau Estelar), onde uma mulher produz laboriosamente o mingau estelar que povoa o Universo enquanto pinta  a lua  engaiolada. A figura está enclausurada, apesar de sua tarefa grandiosa, como a quase totalidade das mulheres por ela pintadas.

Remedios é frágil de saúde. Seu sonho de fazer a “Grande obra” se vê interrompido muitas vezes por problemas cardiovasculares que a debilitam. Porém, ela corre contra o tempo, sem perder o humor e o disciplinado foco que a impulsiona a criar.

Remedios Varo morre aos 50 anos de uma parada cardíaca, no ápice de sua produção artística. Devemos a Walter Gruen, companheiro nos últimos 15 anos de sua vida, a catalogação e documentação  da obra de Remedios.

Na publicação online “DMX México cultura” se lê:”Em 1963 o coração de Remedios Varo sofreu o último espasmo que a libertou de tudo o que a asfixiava (…) A morte a arrancou de um México que amou e que a amou tanto. Dentro da paz peculiar do país adotivo, ela nos transmitiu o símbolo e o sentido da lógica de uma adimensionalidade do tempo e do espaço”.

Remedios Varo – “Papilla Estelar” – 1958

Naturaleza muerta resucitando” é o último quadro pintado por Remedios pouco antes de morrer. Sintetiza o pensamento de Newton, também estudado por ela. Remedios o descreve como o rapaz que vê cair uma maçã e analisa as forças que regem a gravidade ─ realidade ou lenda a metáfora é ótima─  Com ele, pela primeira vez, se explica a relação entre a física da Terra e a física do Universo.
Remedios representa isto com uma mesa em cujo centro há uma vela, à volta da qual giram frutas e pratos um tanto desorientados, acompanhados pelo movimento da toalha. Podemos acreditar que está se formando o sistema planetário, com a vela como eixo que mantém, numa certa ordem, o que poderia resultar em caos. Uma estrela nunca morre. Girará, se condensará e irá formar novos planetas e estrelas. A natureza morta de Remedios Varo não está morta, ressuscita.

Para outros, o quadro representa a busca da pureza interior da pintora e as frutas e pratos, os obstáculos que venceu.

Coisas da arte. Coisas do surrealismo. A obra de arte não se fecha em si mesma. Dirigida à nossa subjetividade, nos deixa a liberdade de interpretação. Subjetiva, é claro.

Remedios Varo –  “a Llamada” 1957

Eu me separo de Remedios Varo e a lembro como se mostra no quadro “A Llamada”, uma mulher elétrica e iluminada. A tela é possivelmente autobiográfica como “Ruptura”, o primeiro quadro que vimos neste texto.
 
Aqui a mulher também sai de um edifício aprisionador com passo seguro, mas agora luze iluminada. Através de seus belos cabelos, o Universo a presenteia com sua luz. Aqui também é observada por estranhos. Seres que a olham passar. Uma mulher à direita do quadro, parece contagiar-se de um leve tom rosado de vida, mas permanece cimentada nos muros como os outros

Para escrever este texto contei com a companhia de Eugenia Tusquets e Susana Frouchman, autoras do livro “La pasión de ser mujer”, publicado por Océano Circe em 2015. E também:

“Cartas, sueños y otros textos de Remedios Varo”, compilados por Isabel Castells da editora Era (2006).

Norma Telles, no site “Anjos da anarquia”,

www.normatelles.com.br › anjos_da_anarquia

Escrito por

Beatriz Rota-Rossi

Beatriz Rota-Rossi é artista plástica, professora de História da Arte, Estética da Comunicação  e Cultura Contemporânea. Autora do livro "Da Gravura ao Grafite- Biografia de Alex Vallauri" editora Olhares , entre outros.