“No dia 30 de dezembro de 1976, Ângela Diniz foi assassinada com quatro tiros numa casa na Praia dos Ossos, em Búzios, pelo então namorado Doca Street, réu confesso. Mas, nos três anos que se passaram entre o crime e o julgamento, algo estranho aconteceu. Doca tornou-se a vítima”

É com esse texto de abertura que a página da rádio Novelo (www.radionovelo.com.br) apresenta a série de podcasts que está dando o que falar. “Praia dos Ossos” estreou no dia 12 de setembro e narra o caso que foi um divisor de água na vida de muitas mulheres: o assassinato da socialite mineira Ângela Diniz, e todo o esforço da defesa, da imprensa e da sociedade como um todo para colocar a vítima no papel de vilã.

A investigação jornalística para remontar a história dramática começou em janeiro de 2019, quando a repórter Branca Vianna e a pesquisadora Flora Thomson-Deveaux vasculharam arquivos, álbuns, baús, inquéritos e entrevistaram 50 pessoas em Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Búzios e Cutitiba, envolvidas direta ou indiretamente com o crime que chocou o Brasil.

Era véspera de reveillón, 30 de dezembro, o casal estava na Praia dos Ossos, Búzios, litoral fluminense, onde Ângela tinha uma casa. Passaram o dia na praia com os amigos. À noite discutiram, Doca saiu. Voltou pouco tempo depois e disparou quatro tiros no rosto de Ângela. Os podcasts voltam à cena do crime e colocam o assassinato no contexto de um Brasil militar, conservador, em que temas como divórcio ainda eram tabu, e que ainda protegia os homens sob o argumento falso da “legítima defesa da honra”. Ainda hoje o argumento é evocado nos tribunais, diga-se. Ouvir trechos do júri, principalmente dos advogados de acusação, é mergulhar no mar sombrio que coloca a mulher no papel da sedutora, da provocadora, praticamente a que pediu para ser executada.  Na total inversão de papéis o criminoso chegou a ser romantizado, como aponta o trabalho das jornalistas, e contou com uma manifestação pública de apoio. Os oito episódios, que irão semanalmente ao ar até 31 de outubro, oferecem muitos motivos para reflexão.

Escrito por

Equipe Chega!

Grupo de alunos, ex-alunos e professores da Universidade Santa Cecília – FaAC, metendo a colher para conectar pessoas, ideias e lutas, dispostos a contribuir com o debate público sobre a violência contra a mulher.