Estudo revela que mulheres ainda sentem o peso do preconceito nas campanhas publicitárias

É verdade que o cenário vem se alterando nos últimos anos, mas a propaganda ainda reforça muitos estereótipos de gênero, principalmente os ligados à objetificação do corpo feminino.

Na semana em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, o Grupo Croma apresentou um estudo em que 62% das entrevistadas declaram que as mulheres são mostradas como objeto na publicidade e 54% concordam que o machismo ainda predomina nas campanhas.

Enquanto as cervejarias tentam acertar a mão, a indústria de cosméticos e higiene pessoal repete os modelos da beleza perfeita e juventude eterna. A publicitária e pesquisadora Lana Aquino Guedes, uma das autoras do artigo científico A compreensão da ressignificação discursiva do conceito “desce redondo” nas campanhas publicitárias da Skol, acredita que a mudança no conceito das campanhas publicitárias tem a ver com os movimentos sociais. 

“A publicidade e a propaganda são processos de significados socialmente compartilhados, ou seja, o discurso publicitário é veículo transmissor de elementos que fazem parte do cotidiano das pessoas. Cada fase e contexto interferem na produção do conteúdo. Repensar o papel que cabe a mulher nas campanhas é fruto de mudanças ideológicas, sociais e culturais, onde a conexão com as pessoas torna-se fundamental para a construção dos discursos”.

Lana lembra que os anúncios de cerveja literalmente beberam na fonte do corpo feminino super sexualizado e do gestual sedutor, coisa que ficou tão datada, quanto o conceito desce redondo, que ela estudou a fundo. “Historicamente as campanhas de cerveja sempre exploraram o assunto com bastante intensidade, com uso de imagens de mulheres sempre passivas, tradicionalmente utilizada em poses e imagens que exploravam a sexualidade”, continua a publicitária.

A virada de chave não significa que o discurso de hoje reflete um cenário de mais igualdade entre os gêneros ou de tolerância com o diferente, já que muitas vezes é estratégia das marcas é apenas se mostrarem mais simpáticas e alinhadas com o momento.

Anunciantes que enxergam a mulher com equidade e empatia não colocam isso só nos anúncios e filmes, mas também internalizam essa postura em sua política de recursos humanos, por exemplo.  “Ainda que alguns anunciantes tentem reverter imagens de campanhas machistas do passado, num esforço para ressignificar seus discursos, o conteúdo não é totalmente apagado da memória das pessoas. Por isso, penso que que na tentativa de compreender e refletir contexto utilizando narrativas mais dinâmicas e que representem melhor este “novo” consumidor, algumas marcas se apropriam de discursos mais democráticos e inclusivos, o que é muito emblemático, porém o não emparelhamento com sua filosofia interna pode não surtir o efeito desejado”, conclui Lana.

Escrito por

Equipe Chega!

Grupo de alunos, ex-alunos e professores da Universidade Santa Cecília – FaAC, metendo a colher para conectar pessoas, ideias e lutas, dispostos a contribuir com o debate público sobre a violência contra a mulher.