Há algum tempo, escrevi aqui sobre o papel da professora no exercício do feminismo em sala de aula. Na época, eu estava refletindo sobre como eu, a professora, preciso sempre ter uma postura atenta para que ações oriundas do patriarcado não aflorem entre meus adolescentes.

Hoje, depois de algum tempo, retorno ao tema, mas para repensar as relações femininas entre esses jovens. Ainda reverbera entre as adolescentes uma postura altamente nociva e competitiva, não é incomum vermos meninas se unirem umas contra as outras, ou, ainda pior, umas contra A OUTRA.

O exercício da empatia por outra mulher não é alimentado. Não desenvolvemos um olhar de compaixão, de companheirismo, de respeito. Não é à toa que o xingamento mais comum entre as meninas é puta e vadia.

Fico refletindo como somos capazes de nos virar contra uma outra mulher e dizer: VADIA! Mesmo que eu me apegue a origem etimológica do termo, “a que anda sem destino”, ainda encontramos a expressão fortemente carregada de valores machistas no dicionário Michaelis, “mulher de vida devassa ou amoral, embora não pratique a prostituição; vagaba”. Mulher de vida amoral? Incrivelmente reafirmamos essa opressão fincada nas páginas dos dicionários. Nós, mulheres, sustentamos o verbete machista.

E, quando uma menina se volta contra a outra, no intuito de ofendê-la, e diz: VADIA, tem como propósito rebaixar ‘sua oponente’ pela sexualidade, de questionar seu livre exercício de viver sua sensualidade, sua feminilidade, seus desejos. É interessante, porque muitas vezes, quem ofende pretende evidenciar outras situações, ou apenas externar uma revolta diante de uma injustiça, traição, raiva. Ainda assim, repete-se: VADIA.

Mais assustador ainda, amigas direcionam umas às outras o mesmo vocábulo, com leviandade e sem a dimensão do perigo que tal prática nos traz. Entre risos, meninas ressoam: VADIA em alto e bom som. Seguem mais gargalhadas e….

Não percebemos que ainda somos duramente questionadas por nossa sexualidade, mais do que isso, ainda somos objetos de apelo sexual. Assim, ao nos dirigir a uma outra mulher, em um momento de raiva e disparar um: VADIA, estamos desqualificando todas as mulheres, estamos nos diminuindo em muitos aspectos. Seja na vivência de nossa identidade livre, ou ainda na soberania da propriedade inquestionável sobre nosso corpo e até mesmo na empatia sobre a identidade da outra. São tantos e tantos ‘nãos’ que ao longo dos séculos nos foram impostos.

Há uma infinidade de palavras que podemos usar para expressar nosso descontentamento com relação à outra. Desde as mais delicadas e elegantes, aos palavrões de baixíssimo calão. Mas saibamos que VADIA não está entre elas. Nem VADIA, nem PUTA, muito menos o FILHO DA PUTA. Lembremos com enternecimento das inúmeras mulheres que ainda veem no corpo a única forma de sustentar uma família. E isso não pode ser banalizado.

Se somos capazes de reavaliar nossa conduta linguística no intuito de excluir termos racistas, somos igualmente capazes de repensar a forma como nos manifestamos em uma discussão. Quem sabe, ao refletir sobre as formas como vamos extravasar nossa raiva com outra mulher em uma discussão, sejamos capazes de ter um olhar mais humanista, menos agressivo. Talvez seja um passo para o exercício da sororidade que o movimento nos propõe.

Escrito por

Paula Denari

Mãe de Elis, Paula é mestre em Comunicação pela USP, docente do curso de Jornalismo da Unisanta e é licenciada em Letras – Português e Inglês.