Ana Paula Araújo cruza o Brasil para montar o retrato de uma violência real e cotidiana: o assédio sexual

Acostumada ao ambiente controlado da bancada do jornal televisivo mais importante do país, Ana Paula Araújo não tinha ideia do tamanho da encrenca que estava abraçando quando decidiu mergulhar na cultura do estupro. Entrevistando vítimas, criminosos, confrontando dados, mergulhando em histórias escabrosas e impunes, a jornalista desenha um cuidadoso perfil do fantasma do abuso sexual. Seu livro recém-lançado, Abuso, a cultura do estupro no Brasil, é um apanhado tão meticuloso, que por vezes resvala na sua própria trajetória de mulher brasileira. Em 319 páginas, Araújo compõe o retrato de muitas nuances de um crime tão cruel quanto cotidiano, que nem sempre resulta em marcas visíveis, mas deixa sequelas eternas nas vítimas silenciosas, que não compartilham, não registram queixa e não denunciam.


Abuso, a cultura do estupro no Brasil/ Ana Paula Araújo / Globo Livros/ 319 páginas/ R$ 42,41

Ali estão as histórias de Danielly, Jéssica e Renata, sobreviventes de um estupro coletivo que chocou o Brasil em 2015, na cidade de Castelo, interior do Piauí. Está também o relato emotivo de Fernanda, estuprada em Peruíbe, quando sua pedalada pela ciclovia foi interrompida de forma inesperada. Foi estuprada, agredida, engravidou e enfrentou um périplo de horrores entre distritos, fóruns e hospitais. Precisou até que mudar de cidade porque teve a ousadia de contar tudo o que viveu.

Araújo: da bancada do JN para a reportagem de campo. Crédito Leo Averso/divulgação

Os relatos são intercalados com experiências de outros países, dados estatísticos,  serviços de acolhimento às vítimas, e, claro, o questionamento sobre o quanto de machismo estrutural responde por esses crimes, que não respeitam lugar, classe social, roupa, circunstância ou horário. A narrativa se esforça em desconstruir vários mitos, entre eles, a culpabilização da vítima: “Os estupradores -e muitos homens que jamais cometeram esse tipo de crime, se agarram a esses mitos para justificar seus próprios atos ou o dos outros. Muitos por exemplo, ainda não têm clareza sobre a ideia de consentimento, desconhecem que “não é não” e que o “não” tem que ser respeitado a qualquer momento, em qualquer condição, mesmo que alguma intimidade consensual já tenha começado”.

Escrito por

Equipe Chega!

Grupo de alunos, ex-alunos e professores da Universidade Santa Cecília – FaAC, metendo a colher para conectar pessoas, ideias e lutas, dispostos a contribuir com o debate público sobre a violência contra a mulher.