Artesã que contribuiu com os vitrais da igreja de Notre Dame foi humilhada, estuprada, acusada de feitiçaria e terminou seus dias anônima

Por Beatriz Rota-Rossi

No apogeu do período gótico, os gestores de projetos arquitetônicos ascendem a um status social muito elevado. Os “doutores de pedras”, como eram chamados, estavam longe de exercer qualquer atividade manual, se dedicando a conceber o projeto e dar ordens a seus subordinados.  Entre os grandes mestres, está Jean de Chelles, um dos projetistas, que recebe do bispo Reinaldo de Corbell a incumbência de dar andamento à construção da Catedral de Notre Dame de Paris, iniciada em 1153.

Estamos em 1257, Jean de Chelles além de artista ─ realizou várias esculturas na porta meridional da catedral─ é também um conhecedor profundo das técnicas de construção. Orgulha-se de impactar seus seguidores com obras extraordinárias dedicadas à glória de Deus.Apesar da energia com que aborda a tarefa, os trabalhos em Notre Dame não correm como gostaria . As obras são interrompidas várias vezes por razões técnicas, que não são poucas, somadas a desentendimentos entre seus patrocinadores ─ a nobreza, o clero e a massa popular que contribuía com dinheiro ou sua própria força de trabalho.

Em cada detalhe, o grande fervor dos construtores. Em cada detalhe, a mão do trabalhador apaixonado─ escultores, cortadores de pedras, desenhistas, carpinteiros, ferreiros, artesãos de vitrais e muitos outros.

Jean de Chelles está preocupado, Notre Dame não avança e o que é pior, é criticada sem piedade por seus contemporâneos. Até o próprio bispo Reinaldo de Corbell, parece desinteressado. O interior da construção se mostra escuro, severo, pesado até, nada que se assemelhasse ao gosto da segunda metade do século XIII ─ grandes alturas, amplos espaços e luz, muita luz.

 As catedrais góticas têm um apelo emocional impressionante. Seu interior deslumbra ─ colunas decompostas em feixes de colunetas disfarçam a força brutal que exercem para sustentar alturas de mais de 35 metros, eliminando a escuridão que, nos séculos anteriores,  produziam as paredes. Abrem-se grandes espaços vazios e para cobri-los, opta-se pelo uso do  material mais frágil existente: o vidro. Desta forma, os vitrais resolvem os  problemas estruturais do peso e  da luz, além de cumprir com a função didática que se espera de um templo religioso ─ ensinar ao povo iletrado trechos das Sagradas Escrituras, assim como lembrar cenas históricas e orientar sobre tarefas da vida cotidiana.

A luz, o elemento “doce” da construção  devia entrar  pelas janelas aconchegando as almas,  diluindo o que ainda restava de austeridade no interior. É essa a tarefa dos vitrais. Caquinhos de vidro colorido, cortados a ferro em fogo, são fixados numa malha de fitas de chumbo formando um mosaico luminoso. As cores, sempre simbólicas, se obtêm adicionando ao vidro ainda quente, cobalto, bismuto, cobre, ouro, e outros pigmentos minerais.

São justamente, os trabalhadores do vidro que nos interessam nesta história. É um trabalho exclusivamente masculino.

Quantas mulheres terão passado pelos canteiros e se encantado vendo o pó de valiosas safiras formar um azul estonteante! Quantas, enfeitiçadas, contemplaram o ouro aprisionado no vidro e  o viram ficar tão tênue quanto um suspiro, para deixar a luz do sol atravessá-lo! Mas as mulheres estão sumariamente proibidas de permanecer nos canteiros, em especial os dos vidreiros. E que nem se fale em aprender a profissão! Seria porque os segredos de produção são guardados a sete chaves? São as mulheres incapazes de guardar segredos por causa de sua proverbial tagarelice, ou porque era impensável que uma mulher chegasse à altura de um artífice?

A construção de Notre Dame parece fadada a empacar novamente. As críticas se repetem uma e outra vez ─  Pesada demais. Severa demais. Escura demais ─ tiram o sono de Jean de Chelles.

─ Falta luz ─ pensa

Decididamente, falta luz! E ele começa a rabiscar inclinado sobre sua grande mesa de desenho. Trabalha horas a fio. O compasso obedece gentil, ao comando de suas mãos. Nascem pétalas de uma flor central com  pequenos círculos embutidos, encaixados entre os infinitos rádios, que explodem no centro de um grande círculo como raios de sol. Jean se baseia  no número 8 e suas multiplicações que simbolizam o Universo, a Terra e os sete planetas. No centro, está a Mãe de Deus rodeada de molduras circulares com figuras representantes do Antigo Testamento, além de reis e rainhas.

Treze metros de diâmetro! A maior rosácea que a cristandade sonhara construir! ─ exclama em voz alta. Entrega o desenho ao encarregado de esculpi-la em pedra e ao mestre dos vitrais.

Desenho da rosácea para ser esculpida em pedra
Rosácea em pedra

Jean de Chelles exige rapidez e perfeição. São 25.000 caquinhos de vidro que devem ser coloridos e encaixados com exatidão. O mestre responsável reúne os melhores artesãos e trabalham sem descanso.

─ Azul, quero muito azul, como a esperança, a humildade, a sinceridade e a piedade de Nossa Senhora─ recomenda De Chelles.

O azul vinha das montanhas do Afeganistão ─ minas descritas por Marco Polo. O famoso azul ultramarino que, depois de um processo longo e difícil, se converte numa cor extraordinária. Cor de luxo. Cor cara. O mestre de vidros sabe da grande responsabilidade que pesa sobre ele, mas sabe também que seu conhecimento técnico não lhe falhará. Além do mais, há uma artífice na oficina que o acompanha desde pequena, em quem ele secretamente confia.

Pois é, a filha do mestre  com  a curiosidade inata das crianças, foi aprendendo o ofício do pai. Os artesãos gostam dela. Gostam de sua segurança, confiam em suas decisões e a respeitam, apesar dos protestos dos clérigos.

Quando uma parte do trabalho fica pronta, o mestre de vitrais   encarrega a sua filha ─ de quem desconhecemos o nome ─ a entrega e aplicação das placas de  vitrais, na rosácea esculpida .

Ela se dirige a Paris, acompanhada de um grupo de artesãos que trabalharão sob suas ordens,  e inicia a empreitada na catedral de Notre Dame. Dirigir essa tarefa, não é fácil, exige um conhecimento de complexas manipulações de encaixes e  precisão absoluta. A esta altura da obra, cometer um erro é impensável.

Podemos imaginá-la com os pensamentos mergulhados em cálculos, os braços carregados de rolos de desenhos, despreocupada com o pó espesso que se levanta do corte das pedras de cantaria. Podemos imaginá-la mastigando depressa o alimento distribuído nas taboas dos andaimes, onde homens que a admiram seguem fielmente suas orientações. Podemos, sim. Mas para os trabalhadores, clérigos e curiosos parisienses, estas são cenas inimagináveis.

A inveja e o ressentimento  logo se fazem sentir. Confiar a uma mulher tal responsabilidade! Inconcebível! É necessário castigar tal afronta!

O castigo não se faz esperar. O algoz, um monge que vem arquitetando a façanha há tempo, na escuridão de sua cela, espera o momento certo para agir. A oportunidade se dá quando  a moça passa, como sempre atarefada, sem perceber a sombra do homem que se desenha nas partículas de pó do solo. Longe está ela de suspeitar sequer, os instantes que se seguirão. Não há ninguém nos arredores.O monge na tocaia, pula, a domina e a estupra. 

Descoberto por seus superiores no ato de agressão, ele não duvida em culpar a moça.

─ Ela me enfeitiçou. Todo dia passava a meu lado e de seu corpo emanava um apelo diabólico. Ela maculou o chão sagrado da  Casa de Deus! Ela é uma bruxa. Filha do diabo! ─  Argumenta o religioso.

A artesã sem nome é presa e condenada à morte. Seus companheiros, inconformados, decidem lutar para reverter a condenação, enquanto avisam ao pai do acontecido.

Para ganhar força em seus protestos, formam uma sociedade secreta à qual se juntam alguns clérigos que percebem a injustiça que acaba de se cometer.

Os trâmites levam tempo, mas a ação é vitoriosa. A jovem é “perdoada” e sai livre. Mas o triste fato tem um alto custo. O mestre, já idoso, não suporta o duro golpe, adoece gravemente e morre, sem antes deixar claro seu último desejo ─ sua filha deve terminar a obra.

Prezados leitores,  fieis à procura de Deus, estudiosos, visitantes em busca de ecos  da História, turistas distraídos entre os arcos de Notre Dame de Paris, guardem seus celulares, interrompam por um momento os selfies! Elevem o olhar e contemplem a obra concluída por uma menina sem nome.   

Aqui está ela.

Rosácea Norte da Catedral de Notre Dame

Para  tecer esta história, que chegou aos meus ouvidos através de um vídeo, e realizar uma leitura muito particular, onde  a realidade se mistura com a imaginação, contei com a ajuda dos sempre necessários Arnold Hauser, Charles De Tolnay, Alain  Erlande Brandemburg, além dos sites:

www.persee.fr/doc/bsnaf_0081_2015 num_20

copec.eu/congresses/wcca2014/proc/works

Escrito por

Beatriz Rota-Rossi

Beatriz Rota-Rossi é artista plástica, professora de História da Arte, Estética da Comunicação  e Cultura Contemporânea. Autora do livro "Da Gravura ao Grafite- Biografia de Alex Vallauri" editora Olhares , entre outros.