“Várias vezes eu me sentia um bicho acuado”

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Difícil olhar para trás e tentar recontar a história, tentar ser imparcial e não me culpar … a culpa vem de “como não percebi no início do relacionamento?“, as feridas cicatrizaram, a página virou, mas essa culpa permanece…

DEPOIMENTO DE S.N.L – 55 anos, de Santos. Analista de Sistemas

Divorciada, filha já na faculdade, sucessivos relacionamentos passageiros, fracassados e então conheci o D., sedutor, falante, presente, envolvente, um quê de protetor, parecia que finalmente tinha encontrado um parceiro.Início de relacionamento, introdução ao meu círculo de amizades e consenso geral … que cara legal … algumas brigas por ciúme da parte dele, mas sempre resolvidas no mesmo dia e a relação seguindo em frente.

Aqui começa minha culpa… será que eu estava tão carente que fui incapaz de perceber em que tipo de relação eu estava embarcando, que o que eu achava que era ciúme era na realidade uma tentativa de controle da parte dele?

Relação se consolida e o próximo passo, morar juntos … Eu estava feliz, mesmo … Casa nova, vida nova, nós, nossas filhas (a minha e a dele), enfim o dia da mudança … Esse dia que seria um marco na nossa nova vida realmente foi, mas um marco de alerta …

Hoje olhando de fora, percebo ali a primeira sutil mudança de comportamento. Durante a mudança, enquanto todo mundo envolvido trabalhava freneticamente, percebi que D. sumiu, fui encontrá-lo dormindo tranquilamente num dos quartos, ou seja, o cara que era parceiro, que ajudava em tudo, simplesmente não colaborou, assumiu sua postura machista sem a menor preocupação de tentar disfarçar.

A primeira noite na casa nova foi também a primeira discussão realmente séria, por causa do orçamento da casa discutimos. A postura dele deixava claro que ele se considerava o provedor e eu uma mulher interessada e dependente do dinheiro dele … Como assim? Sempre trabalhei e a discussão era realmente sobre a divisão de despesas …

E daí em diante começaram as discussões que foram se tornando cada vez mais rotineiras e intensas … sabe quando você joga uma pedra na água, e formam aqueles círculos que vão aumentando ??? É essa imagem que tenho sobre o crescimento das brigas …

Vasculho a memória tentado buscar um gatilho, um motivo, mas não encontro, só sei que foram várias, seguidas de juras que não se repetiriam, com pedidos de desculpas, flores, jóias, psicólogos, psiquiatras, um histórico constante de brigas, pedidos de desculpas e reconciliações, as brigas atingiam inclusive as nossas filhas, que também receberam uma sem conta de pedidos de desculpas e de “isso nunca mais vai se repetir” com um grande discurso emotivo.

No início, eu achava que podia ser algum problema, tanto que pedi ajuda de psicólogos, psiquiatras, hoje, olhando para trás, percebo que nunca houve um motivo real, eu nunca sabia quem chegaria em casa no final do dia, se o D. médico ou o D. monstro.

Não sei determinar exatamente quando percebi que era abusivo, mas lembro perfeitamente da sensação angustiante (que chega a ser física), de quando eu me percebi tomando atitudes que me assustaram, da autoestima destruída (porque ele sabe exatamente quais são suas inseguranças e como minar tua autoestima) …

Várias vezes eu me sentia um bicho acuado, as discussões terminavam comigo trancada num quarto com a cachorra, e ele do lado de fora com gritarias,  xingamentos …

O mais cruel quando você está num relacionamento abusivo é que você fica doente, fragilizada, envergonhada e incompreendida … porque os mais próximos sabem o que você está vivendo e não entendem porque você ainda continua ali, os não tão próximos não imaginam o sofrimento que é estar com aquele cara “tão legal e perfeito” que te manda flores semanalmente no serviço (se ao menos alguém soubesse o preço pesado pago por essas flores) …

Aí no meio disso tudo você tem que juntar seus cacos, se fortalecer e tomar a decisão de dar um basta, sim, porque a decisão é única e exclusivamente sua, solitária …

O mais louco nisso tudo era a total falta de noção do estrago que o meu companheiro (foi duro agora chamá-lo assim) tinha … uma vez ele me disse: “Mas eu nunca te bati” e eu respondi, você faz pior, você me destrói psicologicamente, em outro episódio em que tive um problema com o gerente de um estacionamento ele queria ir lá me defender … eu perguntei: “e de você quem me defende”???

Esse processo durou 4 anos, entre o dia da mudança para o apartamento e a saída do apartamento, foi um processo longo, houve dificuldades pessoais, financeiras, mas consegui sair …

O processo da minha reconstrução foi longo, durou um ano até fechar esse ciclo. Lembro de uma recaída quando soube que ele estava namorando sério (só 3 meses após estarmos separados …), encontrei colo, carinho e acolhimento com minha filha, com algumas amigas, com minha cachorra e a terapia foi fundamental … lembro do dia da minha alta … quando a terapeuta me disse que esse ciclo tinha se fechado, eu fiquei apavorada ante a possibilidade de perder esse apoio … perguntei: “Você tem certeza ???” ela me disse, marcamos outra sessão se você achar necessário, essa consulta nunca foi marcada, hoje, sinto que me reconstruí, me reencontrei e sou feliz, tenho meus problemas, meus medos, minhas inseguranças e minha PAZ …    

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