Violência doméstica gera impactos emocionais em crianças e adolescentes

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Baixo rendimento escolar, mudanças na forma de ver o mundo e frustrações são alguns dos principais indicadores

Por Jane Freitas

Há pouco tempo a questão da violência doméstica passou a ser falada abertamente. Um grande avanço para vítimas, famílias, que por várias gerações sofriam caladas ou cresciam traumatizadas pelos atos vivenciados na infância.

Apesar do progresso da comunicação e do empoderamento, ainda existe, entre muros, dentro  da própria casa – local onde deveria prevalecer a paz, a segurança e o conforto – um verdadeiro filme de terror, sentido na pele por milhares de crianças, adolescentes e mães.

Segundo a psicóloga Luciana Maria Gonçalves Gonzaga, dentro desse contexto familiar, mesmo que as crianças não sejam alcançadas pelas agressões físicas, a violência psicológica a que elas são submetidas representam uma situação de risco relevante.

Para a psicológa Luciana Maria Gonçalves Gonzaga, a comunicação é essencial para transformar o futuro destas crianças vítimas de violência doméstica

Luciana esclarece que a violência doméstica na primeira infância, do zero aos cinco anos, e na adolescência, afeta o desenvolvimento e as consequências se estendem para a fase adulta. Os danos variam de criança para criança, mas independentemente da forma como o sofrimento é vivenciado, os impactos ficam registrados para sempre.

Ao sofrer e presenciar a violência, crianças e adolescentes passam a se enxergar dentro daquele universo violento e,  além disso,  passam também a ver o outro assim. “Isso vai afetar os relacionamentos amorosos, interpessoais, no trabalho, na escola, enfim. Por isso é tão importante a gente ter uma rede de apoio na infância, para transformar, mudar esse caminho das crianças”, ressalta a psicóloga.

Formas de violência:

  • Física
  • Sexual
  • Psicológica
  • Negligência

Impactos:

  • Agressividade
  • Dificuldade no aprendizado escolar
  • Vida acadêmica e social
  • Não confiar em outras pessoas
  • Não confiar em si mesma
“Precisamos fazer o acolhimento para mudar esta história”

Comunicar é preciso

É imprescindível estar atento à comunicação que a criança emite.

Há mães que simplesmente ignoram o que os filhos dizem em relação à violência sofrida por parte do pai ou padrasto. Algumas chegam a induzir a criança ao silêncio, por medo do parceiro, apego a ele ou por não acreditarem no que o filho diz.

Para a psicóloga é preciso que a mãe esteja atenta ao que o filho(a) relata em relação à violência sofrida e às eventuais mudanças de comportamento que ele apresente, que podem indicar que algo não vai bem naquela dinâmica familiar.

Ela ainda explica que, às vezes, mães não conseguem perceber o que a criança quer comunicar, não querem ver o que elas próprias estão vivendo. “Essas mães também podem ser vítimas de uma violência. Então a gente tem que estar fortalecendo essas famílias para elas poderem falar a respeito. A gente tem que fortalecer aquele núcleo familiar. Para eu reconhecer a violência, preciso estar fotalecida, senão eu não consigo perceber”.

A comunicação é tão importante para o reconhecimento da violência quanto para se perceber, por exemplo, indícios de abuso sexual, e outras questões complexas que as crianças, muitas vezes, tentam expressar.

Auxílio em rede

É preciso um trabalho em rede para reconhecer e auxiliar no combate à violência doméstica, e os impactos gerados por ela na vida das crianças e adolescentes.

Luciana ressalta a importância de todos que trabalham com crianças e adolescentes, como as escolas, por exemplo, estejam preparados para observar os sinais de violência doméstica. “Se a gente não conseguir fazer, efetivamente, alguma coisa, acho que vai ficar difícil para quem vive a situação de violência. Então o caminho é a gente estar atento e acolher”.

Mães, professores, CRAS da assistência social, unidades de saúde e pediatras devem fazer parte dessa rede de atenção.

O acompanhamento psicológico é importante, porém é necessária a atuação de outros profissionais para um trabalho dentro de uma visão multidisciplinar. “É dentro da perspectiva da transformação. Isso não só para crianças pequenas, mas para qualquer faixa etária. A gente sempre pode se transformar e transformar o outro. Aquela criança que está muito quieta, se isolando, está indo muito mal na escola, vamos ver o que está acontecendo com essa ela. Vamos ver o que está atrás desse comportamento. Muitas crianças não conseguem colocar pra fora”, explica Luciana.

Ainda de acordo com a psicóloga, um dado importante encontrado em literatura técnica, é que a violência doméstica atinge altos índices na primeira infância. Segundo ela, a creche e o pediatra precisam observar essas transformações porque ainda acredita-se que a violência só acontece com crianças maiores. “Precisamos estar atentos aos bebês, crianças pequenas e em idade pré-escolar”, adverte.

Não é culpa da criança. Não é culpa sua, mãe

Filhos, em muitos casos, ficam confusos com a violência dos pais. Sentem-se culpados ao presenciarem brigas que envolvem agressões físicas.

A criança passa a enxergar a violência como algo muito grande e que ela não tem força para lidar. Um verdadeiro monstro para o imaginário infantil.

Não muito distante dessa percepção, muitas mulheres também sentem-se como os filhos naquele momento: impotentes.

Luciana explica que essa sensação está diretamente ligada à autoestima. A violência faz com o que o outro acredite que ‘se eu passo pela violência, a culpa é minha’.

“Não, a culpa não é nossa. É do agressor. É de quem é violento. Ele também precisa de ajuda? Sim. Mas a gente tem que ver que é crime  e precisa mudar isso. Por isso, a mulher não quer contar, não quer dividir. Porque ela acha que a culpa é dela, porque ela fez uma má escolha, ou ela não vai ser aceita socialmente, não vai ser aceita pela família. Então ela se sente discriminada. E as crianças e os adolescentes também. Eles têm, muitas vezes, a questão da vergonha. Como se a culpa fosse de quem sofre a violência”.

Psicóloga Luciana Maria Gonçalves Gonzaga

Prevenir para transformar

Há casos de crianças e adolescentes que defendem a mãe ao presenciarem uma briga em que há agressão física e se tornam homens protetores, bons pais. Outros, no entanto, seguem o modelo do próprio pai e se tornam também agressores.

Algumas mulheres crescem não aceitando, em hipótese alguma, qualquer forma de violência. Enquanto outras, consideram de certa forma normal sofrer maus tratos e apanhar do marido. Afinal, a mãe e a avó também apanhavam. São ciclos que se repetem.

A psicóloga salienta que famílias que passam por várias gerações pela violência, precisam ser assistidas. “Cada um de nós vai ter um jeito diferente de lidar com o sofrimento. Alguns conseguem falar, outros não. Então, a gente tem que estar, de alguma forma, atuando principalmente na prevenção para transformar, e esses filhos consigam ver outras possibilidades”.

É possível sim, transformar. E falar a respeito é o primeiro passo para entender que a vítima, ou as vítimas, podem ser acolhidas e já não estarão ou se sentirão sozinhas. A partir daí, é abraçar as novas oportunidades de mudança, de caminhos, de restauração e liberdade.

*Crédito da foto em destaque na home: www.canva.com

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